o reconhecimento do privilégio cis

Todos que estamos envolvidos em causas sociais sabemos da relação entre privilégio e opressão, porém nem todos nós sabemos que uma mesma pessoa pode ser oprimida e também ter privilégios. Eu sou mulher, faço parte da minoria que é oprimida em muitos aspectos, vivendo em uma sociedade patriarcal e machista. Ao mesmo tempo, sou branca em uma sociedade com estruturas racistas e colonizadoras. Sou oprimida por ser mulher, mas faço parte de uma maioria em direitos por ser branca, logo, eu também faço parte como opressora. Independente de discordar do racismo, de repudiar o racismo, em aspectos sociais eu tenho privilegios garantidos, os quais muitas companheiras de luta feminista, negras, não possuem. A premissa de privilégios sociais é a mesma em qualquer relação oprimido x opressor, assim como na questão do privilégio cis. Não existe uma pirâmide da opressão ou uma lista de quem é mais ou menos oprimido, e justamente por isso cada um de nós pode ser os dois. Eu, enquanto mulher cis, vivo em uma sociedade que além de racista, é transfóbica. Que além de racista e transfóbica, é capacitista e classista… Eu enquanto mulher cis branca de classe média convivendo com pessoas com deficiência física, negras, trans* e pobres, em uma sociedade que nega direitos a todos eles, tenho sim privilégios

Tenho visto nos últimos meses uma onda imensa de transfobia dentro do movimento feminista, e embora eu não me sinta apta pra falar sobre o que pessoas trans* sentem em sua totalidade, tenho tentado reconhecer meu privilégio nessa questão.  Não é tão difícil de entender se pensado racionalmente, deixando de lado qualquer emoção romantizada sobre militância e teorias (que não são sagradas e podem ser questionadas por outras mulheres). Se vivo, sendo cis, em um país onde pessoas trans* são mortas simplesmente por serem trans*, o privilégio é nítido. O machismo mata mulheres cis todos os dias (e mulheres trans* também são mortas pelo machismo, já que a transfobia está diretamente ligada ao que a sociedade espera do ”feminino”), sim, já que homens cis detém o privilégio de não serem mortos só por serem homens. Entretanto, mulheres cis são reconhecidas como mulheres pela sociedade, enquanto que mulheres trans* (assim como todas as pessoas trans e não binárias) passam a vida buscando o mínimo reconhecimento social e respeito, e são mortas por isso. Ninguém duvida de nós, cis, quando dizemos que somos mulheres. Ninguém duvida que uma mulher cis seja mulher independente de sua classe social ou qualquer outro aspecto de vivência, sempre somos reconhecidas como mulheres, enquanto as pessoas trans* não conseguem a mesma garantia da sociedade toda. Ou seja, mulheres trans não são reconhecidas, além de serem mortas, espancadas, expulsas de casa, humilhadas, sexualizadas em critérios abusivos e com vários direitos essenciais negados por serem trans*.

Quando nascemos, somos designados, socialmente, a um gênero de acordo com nosso genital. Sim, a sociedade faz isso, mas isso não quer dizer que tenhamos que aceitar. Nós, feministas, não aceitamos que a sociedade nos diga o que devemos vestir, comer, falar, gostar… Então por qual motivo aceitaríamos que outras pessoas fossem designadas com um gênero que não lhes condiz? Se combatemos a imposição social sobre nossos corpos seria então uma hipocrisia nossa NÃO combater a imposição de gênero no nascimento (não só no nosso, como no nascimento dos outros)? Se lutamos todos os dias para que reconheçam os privilégios sobre nós, devemos também reconhecer os nossos sobre outras mulheres.  Temos o que a sociedade espera de nós: somos mulheres com vagina. Esperando isso, a sociedade vai rechaçar qualquer mulher que não tenha uma e aí começa o privilégio cis. Nossas vaginas não são opressoras, a sociedade é, mas por possuirmos uma, nunca duvidam do nosso gênero. Tenho amigas e amigos trans* que lutaram a vida toda para o reconhecimento. Que desde muito cedo sofrem hostlização da família, amigos, de desconhecidos, tudo isso por não se encaixar no que o mundo espera. Assim como nós, pessoas trans* também lutam contra uma sociedade com estruturas excludentes, lutam pela sobrevivência. Ter o mínimo de empatia, respeito, inclusão e colaboração com pessoas trans* não é só uma boa ideia para as pautas feministas, como também é nossa obrigação enquanto seres humanos que lutam por direitos humanos.

 

 

ps.: em muitos textos e relatos pela internet presenciei pessoas dizendo que pessoas trans* são estupradoras em potencial, pedófilas, homens de saia e milhares de outros absurdos. Então gostaria de dizer que ainda que algumas pessoas trans* cometam erros, assim como todos nós, são humanas e merecedoras de reconhecimento de seu gênero. Se reconhecemos o gênero de qualquer pessoa cis, independente de seus atos, também devemos reconhecer o gênero de pessoas trans*. Não vejo ninguém dizendo que TODAS as mulheres cis são assassinas porque uma mulher cis assassinou alguém. Não vejo generalizações criminais quando se fala de mulheres cis, então sejamos coerentes e não misturemos o gênero de alguém com sua conduta de caráter, e nem julguemos toda uma causa social com base em algumas pessoas que possam fazer parte dela.

 

ps2: se informar sobre o que não conhece é importante, então as dicas pra quem quiser se informar mais sobre as questões trans* são:  textos da Daniela Andrade, publicados no facebook dela e o site transfeminismo, que aborda o feminismo interseccional pela visão trans*.

Desabafo: escolhas e o feminismo

Esse texto foi escrito enquanto eu me espremia inteira pra conseguir dizer essas coisas. Não me sinto amparada neste minuto e espero que passe. Tenho lido nas redes sociais diversas opiniões, diferentes umas das outras, sobre feminismo e isso é bom, já que o debate e o questionamento são sempre válidos. Porém, algumas coisas me incomodam profundamente e me desamparam. Não tenho o hábito de escrever ”feminismo só para feministas” mas esse texto é um desabafo para minhas companheiras. Sim, estou angustiada.

Logo que conheci o feminismo soube que ele busca e representa a liberdade da mulher, a liberdade de escolha de TODAS as mulheres. Eu fiz escolhas: comecei a lutar com muitas outras mulheres maravilhosas que conheci na causa. Percebi que os padrões sociais, de beleza, de relacionamentos, de comportamento etc eram opressores e que eu não deveria julgar uma mulher que quer fazer parte deles porque por anos fomos condicionadas a querer isso, fomos educadas para isso. A culpa não é nossa. Percebi também, depois de muitos tombos, que poderíamos escolher por ser/estar/fazer algo nos padrões, já que  o conforto consigo mesma é o mais importante para se viver bem. A partir daí, o feminismo cresceu em mim como um bebê recém nascido e bem alimentado. Eu poderia ser o que quisesse. Eu poderia escolher ser dona de casa ou trabalhar fora. Eu poderia escolher me casar ou não, ter relações abertas e poliamoristas ou monogâmicas. Eu poderia me depilar, maquiar, andar de salto e roupa comprida ou não me depilar e só usar saia curta, sem maquiagem. Eu poderia ter filhos ou adotar 20 gatinhos que precisam de um lar. Eu poderia TUDO e minhas escolhas seriam abraçadas: você se sente melhor assim? É assim que você fica feliz em sua vida? Vá em frente, feminismo é liberdade. E de fato, fui recebida assim em muitos núcleos feministas.

Então, iniciei o processo de desconstrução dessas coisas: eu não PRECISAVA estar no padrão. Mas eu PODERIA escolher. Porém nos últimos tempos, tenho me sentido desamparada cada vez que leio de alguma companheira coisas do tipo ”monogamia é opressora, então ser monogâmico é super problemático.” Penso que ninguém É monogâmico. As pessoas ESTÃO monogâmicas porque nada impede que se entre em um outro tipo de relação a qualquer momento. Penso também que se qualquer mulher se sente confortável (consigo mesma e com o/a outro/a) em uma relação monogâmica, tendo consciência de que não precisa ser OBRIGADA a isso, não há nada de problemático. São pessoas, mulheres, adultas e fazendo escolhas sobre a própria vida. Já temos o resto do universo nos dizendo o tempo todo como ser e agir. Já temos o julgamento da religião, do governo, da família, dos amigos, do emprego… Temos julgamentos motivados pela obsessão pulando de todos os lados na nossa cara, no nosso corpo, nas nossas relações. Se eu quero emagrecer, por exemplo, se é assim que vou me sentir melhor comigo mesma, e tendo consciência de que não preciso ficar magra pra sempre, minha escolha deve ser tão respeitada quanto das mulheres que se amam como são, que lutam diariamente pelos seus corpos em diversas formas, tamanhos e cores.

TODAS AS MULHERES devem ter seu direito de escolha garantido. Principalmente nos espaços feministas. Principalmente.

Feminismo, dentro de mim, representa todas as possibilidades do mundo: nós, mulheres. Nós somos infinitamente possíveis, e por isso, dentro ou fora dos padrões, que o respeito às escolhas seja a maçaneta da imensa porta que é a igualdade.

ps.: peço desculpas se em algum momento do texto fui grosseira ou desrespeitosa com alguém. É um desabafo e escrevi afobada. Caso tenha ferido alguma pessoa, me retrato antecipadamente.