A Hora [e os minutos] da Estrela

O filme A Hora da Estrela (1985 – direção de Suzana Amaral) explora, além de atuações incríveis, o livro homônimo de Clarice Lispector. O enredo conta a história de Macabéa, moça simples e curiosa que trabalha como datilógrafa com baixo salário, referência à opressão social contra os menos favorecidos: Macabéa come enquanto trabalha, deixando a gordura do lanche cair nos papéis. São os resíduos do sacrifício do trabalhador respingando nos interesses do patrão.

A moça tem uma fixação infantil por Coca-cola e a referência desta vez é ao capitalismo: o sonho da classe operária em conquistar capital, a obsessão (incentivada pelos capitalistas) pelo lutar e vencer. Referência esta que também percebemos no personagem Olímpico, namorado de Macabéa, que sonha em ser Deputado e alcançar a glória. Curiosamente, Olímpico se apaixona, tal como profetizou a cartomante, por Glória, colega de trabalho de Macabéa. O aspirante à política alcança a Glória, mas não a glória, já que apenas sonhava e não se instruía para tal, diferente de Macabéa, que passava boa parte das madrugadas ouvindo a rádio com informações culturais e músicas clássicas, além de perguntar para as pessoas sobre o significado de palavras e termos, como por exemplo, na cena em que ela pergunta a Olímpico o que é ‘’mimetismo’’, ao que ele responde ‘’não é coisa para moça donzela saber. A zona está cheia de mulher que perguntou demais. ’’ Olímpico sabia tão pouco ou menos que Macabéa, mas seu ego fazia com que ele humilhasse a namorada através de duras palavras misóginas e arrogantes, usando a simplicidade dela como desculpa.

O traço da opressão patriarcal aparece em diversos momentos… Glória fica com muitos homens e é socialmente julgada: não cosegue se casar, pois o machismo faz com que os homens a rejeitem para o matrimônio.  Macabéa é virgem e Glória zomba dela quando sabe. A cartomante prevê que a moça se casará com um estrangeiro rico, que a fará muito feliz… Macabéa então compra um vestido azul-claro que lembra vestidos de noiva: babados, tule, cor clara, bufante… Sai saltitante e é atropelada pelo tal estrangeiro. É a pequena morte. O orgasmo dos poetas. Sangra pela boca (por onde engole, mastiga, saboreia, descobre…).Sua virgindade está rompida. A cena final, ambos correndo um ao encontro do outro, mostra a morte pelo ângulo realista: o casamento como instituição.

A Hora da Estrela é feito com dezenas de cortinas transpassadas frente às janelas sociais, e retrata nas entrelinhas os minutos de uma estrela cujo brilho é feito pela simplicidade de um todo e pela riqueza de detalhes.