o desfile de Rick Owens e o incômodo velado

Que sites e blogs de moda são carregados de regras toscas, todo mundo sabe. O Petiscos não fica muito longe disso. Há tempos atrás, um post com muita ironia sobre as roupas eleitas pelas convidadas do AVN Awards, premiação de filmes pornográficos, demonstrou o quanto slut shaming* é tido como ”bom gosto” nas publicações de moda. No dia 27 de setembro, o site que recebe milhões de acessos diários publicou um resumo com fotos sobre a semana de moda de Paris, iniciando com o desfile do estilista americano Rick Owens. Segue o trecho:

”Não dá pra começar a falar sobre o terceiro e quarto dia da semana de moda de Paris de outra forma: só se fala no desfile de Rick Owens! Sabemos que ele tem um estilo mais gótico, podemos até chamá-lo de sombrio, mas com certeza ele conseguiu chamar a atenção desta vez – e não foram pelas roupas! Bom, na verdade ele atendeu a uma certa frustração da maioria mulheres que se sentem em desvantagem quanto à magreza das modelos e o caimento das roupas de desfile. Então a coleção de primavera/ verão 2014 de Rick Owens foi apresentada por um grupo de percussionistas de step dance, ontem em Paris. Quem não conhece, step dance é uma performance em que o corpo é usado como instrumento musical. O resultado impressionou a plateia, mas claro, tudo isso foi tratado para apresentar uma coleção de roupas. Daí surge a pergunta: valeu a pena colocar mulheres reais na passarela ou isso desviou o foco de atenção?”

A ”certa frustração” descrita é real: eu e muitas outras mulheres não nos sentimos representadas nas passarelas, e até mesmo nas lojas, onde encontrar roupas com modelagens para corpos diversos é muito difícil. Não, não tenho nada contra modelos ou pessoas magras e inclusive culpar essas meninas pela pressão que sofrem é absurdo.  Sabemos que o padrão de beleza é reforçado toda vez que um desfile de moda só apresenta pessoas dentro desse padrão, e esse é o mesmo padrão que mutila mulheres para enriquecer empresários. Me senti bem em ver mulheres negras e gordas, em um dos eventos de moda mais importantes do mundo. Mulheres excluídas e marginalizadas socialmente pela aparência ganharam ali algum espaço para mostrar que todas as pessoas se vestem. Todas as mulheres, de uma forma ou de outra, usam roupas e que temos tamanhos diferentes. Não temos certeza se a intenção do estilista foi mostrar corpos diferentes do que se vê em desfiles, dando atenção para o tema ou se foi um jogo de destaque, um modo de ganhar atenção. Apesar disso, acredito que algumas pessoas tenham refletido ao ver imagens do desfile e espero que reflitam muito mais.

A última frase, ”Daí surge a pergunta: valeu a pena colocar mulheres reais na passarela ou isso desviou o foco de atenção?” me faz pensar o quanto precisamos bater na mesma tecla até que entendam. Mulheres com corpos que vemos todos os dias na rua ou no espelho chocam e tiram a atenção das roupas em uma apresentação de moda, e isso é muito sintomático. O texto trata essas mulheres como itens decorativos que atrapalharam a demonstração do produto, e dão a isso um tom tão negativo e velado, como se de fato não valesse a pena trazer um debate sobre isso. Como se não valesse a pena chocar um público acostumado a julgar pelos padrões. Como se não valesse a pena o foco sair das roupas diretamente para as pessoas. Como se não valesse a pena o emponderamento de mulheres, em todas as [nossas] formas possíveis. Não podemos ignorar o quanto a indústria da moda (incluindo esses blogs e sites) afeta negativamente milhares de mulheres todos os dias e devemos ser responsáveis em cada palavra que escrevemos sobre isso. E iremos, certamente, bater nessa tecla até que entendam. Até que mudem.

* slut shaming é o ato de julgar, apontar e caçoar de mulheres por sua liberdade sexual, modo como se vestem, falam e agem.

Bons Costumes: 1925 ainda está aqui

O filme Bons Costumes* baseado no filme de 1928 de Alfred Hitchcock, que por sua vez foi inspirado na peça teatral de  Noël Coward (1925) retrata a mulher com uma visão bem diferente do olhar geral ao feminino da época. Larita, uma americana piloto de corrida de carros, já lidava com julgamentos sociais pela profissão que escolhera. Quando se apaixona e se casa com John Whittaker, um jovem aristocrata inglês de uma família falida, Larita é levada pelo marido para conhecê-los na Inglaterra e o conflito com a sogra começa logo na recepção do casal.

Larita não corresponde ao ideal feminino dos anos 20/30. Veste calças, dirige carros, descolore os cabelos e é alguns anos mais velha que seu marido. A sogra, Veronika, assustada, passa os dias desafiando Larita em uma tentativa ferrenha de desmanchar o casamento do filho, já que sonha em casá-lo com Sarah, a filha do vizinho rico. Em um jogo interessante, Veronika, faz de tudo para manter as aparências de uma família normal e padronizada, sem perceber que mesmo esforçada para preservar tradições, sai do estereótipo de esposa da época. No mesmo núcleo, vemos outras figuras femininas como as irmãs de John: Marion, que se ilude dia e noite sobre se casar com um rapaz que desapareceu e Hilda, apaixonada pelo filho da família vizinha. Comportamento socialmente esperado de todas as mulheres: buscar o casamento. O pai, Jim, é um veterano de guerra saturado de aparências e passa o dia lendo jornal, consertando sua motocicleta e fumando.

O filme se desenrola em uma comédia leve e inteligente. Larita se esforça para mostrar que almejar um casamento com alguém desaparecido é bobagem, que o casamento pelo casamento não é uma boa ideia, no caso de Marion, e que Hilda não precisa suplicar pela atenção do vizinho. Larita passa de nora prreservada para a que mostra sua personalidade verdadeira, como na cena em que, contra a caça de animais, desafia a sogra indo ao evento com a motocicleta de Jim enquanto todos montavam cavalos. Ela já não se importa mais em ser agradável para os padrões da sogra, e é aí que John começa a estranhar a moça. De uma forma ou de outra, ele espera que a esposa se sacrifique por ele e pela família dele. Que more com eles na Inglaterra, apesar de Larita falar constantemente que deseja voltar aos EUA e ter a própria casa. Depois de descobrirem que ela foi julgada e absolvida pela morte do primeiro marido, o clima fica bizarro. Algumas cenas depois ela explica para John que o antigo esposo sofria de câncer e que ela o amava tanto que atendeu seu pedido: envenenou-o para que morresse em paz, sem as complicações da doença.  John bate o pé como o garoto mimado que é e ignora a mulher durante a famosa festa de natal dos Whittaker. Larita então toma uma decisão firme:  devolve o anel de casamento para John e quebra a estátua que fica na porta da frente, tão adorada por Veronika. Nesse momento, notamos o quanto Larita, ainda que amando muito o marido, se coloca em primeiro lugar. Ela percebe que só sobreviveria naquele lugar se fizesse o jogo social esperado, e se recusa. Se recusa a ser o que esperam que ela seja. O sogro, Jim, aproveita a carona e foge também.

Se pensarmos que essa história foi criada em 1925, percebemos que nosso meio social não mudou muito. Ainda, infelizmente, se busca a tradição, a aparência, se espera da mulher o papel de esposa dedicada que se altera para se encaixar em um casamento. Óbvio que um casamento, em suas diversas formas possíveis (mono, poli, hétero, homo…) pode funcionar. É uma decisão pessoal. O questionamento deve ser feito a partir da pressão social para que ele aconteça. Conquistamos muitas coisas, mas apesar disso, uma mulher piloto de corrida nos dias de hoje ainda sofre preconceito. Uma mulher que se recusa a praticar o esperado dela sofre repressão em cada núcleo de sua vida, todos os dias. É vergonhoso que ainda tenhamos que debater isso. É vergonhoso que ainda precisemos, todos os dias, mostrar para o mundo que não, não iremos nos submeter para preservar qualquer conservadorismo.

*Easy Virtue, Inglaterra, 2008. Diretor: Stephan Elliott.

Medida Certa e a liberdade

Ontem, domingo, o Fantástico exibiu a nova temporada de seu quadro Medida Certa (o nome já é bastante preocupante), onde famosos são convidados (e pagos) para perderem peso. No elenco, as cantoras Gaby Amarantos, Preta Gil e o ator Fábio Porchat farão exercícios, dietas, tudo acompanhado pela câmera do programa.

Gaby e Preta são conhecidas por sua música e mensagem positiva sobre aceitação do próprio corpo. São símbolos de que o padrão de beleza imposto pode ser derrubado (e sim, elas são lindas). Entretanto, as redes sociais entraram em colapso: duas mulheres, fora do padrão de beleza e símbolos da aceitação do corpo, participando de um projeto de emagrecimento? Como pode? Pode. A liberdade de ser quem se é também se estende ao querer emagrecer. Poderia ser pelo dinheiro? Sim. Poderia ser pela saúde? (mesmo sabendo que saúde é bem relativa e que nem todo gordo vai mal de saúde, assim como nem todo magro vai bem). Sim. Poderia ser porque querem emagrecer? Sim. Partindo do princípio de que cada um faz com o corpo o que preferir, não temos o direito de julgar alguém que escolhe emagrecer.

Óbvio, combatemos diariamente o padrão de beleza e sabemos o mal que ele faz. Sabemos que milhares de mulheres sofrem por conta dele e que a aceitação do próprio corpo é importante. Porém, a liberdade é uma característica forte no feminismo em que eu acredito, e defender o direito ao corpo é defender a liberdade. Li alguns comentários e textos de pessoas dizendo que a mensagem que Preta e Gaby deixaram com isso é negativa. Que muitas mulheres se inspiravam na aceitação delas e que agora soa como hipocrisia. Não. Hipocrisia é defender a liberdade da mulher e julgá-la quando decide mudar. Hipocrisia é defender o direito ao corpo e apontar o dedo quando uma mulher toma uma decisão assim. Mesmo que a escolha delas fosse unicamente para o padrão de beleza: são anos de pressão social. São décadas de mensagens e influência do padrão. Como julgar alguém que tenta se encaixar? Como julgar quem se sente intimidada pelo padrão de beleza?

Gaby e Preta tomaram uma decisão e eu, enquanto feminista, me sinto na obrigação de defendê-las. De mostrar pra quem puder ver o quanto somos livres e o quanto podemos decidir sobre nossos corpos. São mulheres com escolhas, como todas nós. Defender a liberdade de todas as mulheres é também respeitar suas vontades.

O aparelho da perfeição

Tem um aparelho milagroso na minha TV. A voz me diz que posso ficar com o corpo perfeito em até 10 semanas. Corpo perfeito… Quem disse? O moço da TV. Não sei exatamente se a máquina funciona e não sei se essa perfeição existe. O que existe é um homem na minha TV me dizendo que devo buscar a tal perfeição comprando o aparelho milagroso. Nos 30 segundos de propaganda, vejo 4 mulheres magras, brancas e altas, malhando muito no aparelho. Elas sorriem enquanto não derrubam uma gotinha de suor sequer. Penso em como não tenho aquela barriga chapada e que eles parcelam em até 12 vezes. Me sinto estranha. Por quê?

As moças de cabelos loiros e longos, corpos magros e com vários rapazes sorrindo pra elas me faziam querer aquela pasta de dente, na adolescência. Eu era muito magra e sonhava em ter seios fartos como elas. Eu fantasiava que quando pudesse, ficaria loira. Eu alisava meu cabelo desde os 8 anos. Eu queria ser 20 cm mais alta. Eu chorava. As garotas da minha sala eram altas e todo mundo dizia que mulher alta era mais bonita, mas que muito alta era desajeitada. Tinha que ser ”do tamanho perfeito.” Perfeição: desde aqueles anos 90 me tornando desconfortável. Eu sentia que tinha muitos defeitos mas que apesar disso, era magra. As revistas, com muitas fotos de moças magras me fazia ficar aliviada por ser também. Eu estava certa de que cresceria e pelo menos magra, seria. Depois da adolescência, engordei alguns quilos. Entrei em choque e me sentia horrível. Lia alguns blogs e eles me diziam que braço gordo é feio. Que estar gorda é feio. Que ter barriga saliente é feio. As pessoas diziam ”nossa, como você engordou” e eu me sentia enjoada. Algumas roupas ainda serviam, não entendia exatamente como podia estar tão gorda.

Aí eu conheci o feminismo.

Sabe aquela frase que a gente sempre ouve no rolê feminista: AME SEU CORPO? Pois bem, eu percebi que eu podia amar meu corpo. Eu notei que não havia razão (além de gastar dinheiro e ficar do jeito que o padrão quer) pra surtar pelo meu corpo não ser como aqueles das revistas. E eu amo meu corpo completamente? Não. Não amo tudo em mim justamente porque sofri por anos com mensagens e imagens me dizendo como eu deveria ser e não há nada mais difícil que se desprender de coisas impostas desde sempre. É foda. É uma merda. Me dói ser assim e saber que não deveria doer. E dói porque me fizeram crer que eu não podia me amar. E nesse exato momento, milhões de crianças e adolescentes estão olhando pra TV e desejando não ser o que são. Milhões de mulheres estão morrendo, se picotando, se modificando, não por elas mesmas, mas pelo padrão. Não julgo alguém que está no padrão de beleza (seja por genética, seja por indução). Não julgo alguém que quer estar. Culpo o sistema. Esse sim precisa ser combatido pra que possamos olhar no espelho enxergando um ser humano, uma pessoa com vontades e alegrias, com tristezas e histórias e não um enfeite. Não estamos no mundo pra decoração. Não somos paisagens. Temos nossa poesia, mas ela é fluente de quem entende que não precisamos nos encaixar.

Na minha TV, ainda escorre um padrão cruel pelos buracos dos cabos e pelo canto da tela. O aparelho da perfeição, a coleção de roupas que acha que pessoas gordas não se vestem, o xampu que promete deixar o cabelo mais liso, a pasta que vai deixar os dentes mais brancos, o absorvente que camufla minha menstruação… Na banca, ainda se vende aquela incerta perfeição, que muda de acordo com quem lucra. No meu corpo, que AINDA não amo completamente, pulsa todos os dias os passos pra aceitação. Na minha barriga saliente, gero o amor pelas minhas curvas, pela minha forma, pelo que eu sou.