sou feminista: posso emagrecer?

Emagrecer ou não emagrecer? Eis a questão femista. A resposta pode ser um sonoro não para alguns grupos, já outros acreditam sim. Eu pessoalmente acredito que é algo que somente a mulher pode decidir por si mesma. Muitas mulheres escolhem emagrecer por questão estética mas também devemos lembrar que existem outros motivos que levam alguém ao emagrecimento, e que cabe somente à ela decidir.  Sempre que falo isso em algum debate feminista ou em alguma discussão pela internet, recebo algumas respostas, então vou colocar aqui observações sobre elas e sobre o quanto nosso limite não é o mesmo limite do outro:

”tem que ensinar a mulher a se aceitar, não a emagrecer” 

Tem que ensinar a se aceitar, tem que ensinar a se amar, tem que ensinar que a mulher não é um robô e que pode sim tomar a decisão que achar mais adequada pra ela, pra vivência dela. Eu aceito partes do meu corpo e não aceito outras. Já odiei partes que hoje amo e já amei partes que hoje odeio. Não é algo estático então depende exclusivamente do tempo da própria mulher pra se gostar, não dá pra impor amor próprio, e enquanto esse amor não é definitivo, o conforto pessoal deve ser preservado.

”feminista que quer emagrecer se vende pro sistema”

Todos nós estamos inseridos em um sistema que nos oprime em diversos níveis. Mesmo que contra, não estamos totalmente livres de praticar coisas que colaborem com o sistema pois fazemos parte dele. Colaborando com o sistema ou não, não podemos ignorar que pessoas têm sentimentos, sensações… Passamos a maior parte da vida recebendo mensagens de que emagrecer é melhor do que ser gorda e isso não se desconstrói de um dia pro outro, não se  injeta nas pessoas a sensação de que elas já se amam e se aceitam. Isso leva tanto tempo pra algumas mulheres e pouco tempo pra outras, portanto padronizar quem não deve emagrecer é um tipo de opressão, ainda que não estrutural, mas também fere o tempo pessoal de cada mulher pra lidar consigo mesma. Ser xingada, humilhada, ridicularizada são só algumas das coisas pelas quais as mulheres fora do padrão passam, temos que combater o sistema que trata as mulheres assim como se fosse justo, não combater as mulheres que buscam não sofrer mais dessa forma.

”é hipocrisia ser feminista e querer perder peso”

Feministas não são pessoas exclusas do restante da sociedade. Nós também estamos diariamente em contato com os padrões internalizados em nós desde que nascemos. Lutamos pela liberdade e por direitos não nos torna blindadas automaticamente. Feminismo é um movimento social e como todo movimento social, envolve pessoas. Obviamente o ideal é que todas nós tenhamos conforto em ser como somos, longe dos padrões, mas um ideal não é realizado sem respeito ao tempo que isso leva pra acontecer.

”se quer emagrecer e é feminista, então é libfem (feminista liberal)’

Primeiro que feministas liberais também são mulheres e também são feministas, então não usem isso como ”ofensa”. Segundo que não acredito que seja muito inteligente dizer para uma mulher o tipo de feminismo que ela prefere, sem que ela tenha dito expressamente. Terceiro que ninguém está no corpo, lugar e vivência da feminista que quer emagrecer pra saber como ela se sente exatamente. Ninguém pode dizer pra uma mulher se ela pode ou não emagrecer por ser feminista pelo simples fato de que não faz parte do seu direito enquanto ser humano julgar a decisão de alguém.

 

Nós temos uma vida com começo, meio e fim, seria de um egoísmo absurdo exigir que uma feminista que quer emagrecer não o faça, já que o nosso tempo de vida é finito e até o fim chegar, somente ela sentirá o desconforto de passar a vida se sentindo inadequada. Devemos sim incentivar que todas as mulheres percebam o quanto seus corpos não são errados, devemos sim mostrar que tudo o que sabemos sobre beleza foi construído pela opressão, tanto do patriarcado quanto do capitalismo. Devemos sim mostrar que se amar é parte essencial para acabar com o machismo, entretanto estamos lidando com pessoas e certamente respeitar o limite, espaço e conforto delas em suas vivências é o primeiro passo para a sororidade.

 

 

 

 

 

 

Esquadrão da Moda e as caixas iguais.

 

Programas de TV, de um modo geral, ditam comportamento para sua audiência e nos últimos anos, programas de ”transformação” da aparência feminina têm chamado minha atenção. Resgatar a autoestima é algo positivo, sim, mas tais programas têm usado o resgate da autoestima como desculpa para empurrar a mulher o mais perto possível do padrão de beleza atual. Um desses programas é o Esquadrão da Moda (o nome já me dá arrepios) que exibe sua versão brasileira aos sábados, no canal SBT. Lá, funciona assim: parentes ou amigos inscrevem a mulher no programa (sem que ela saiba) e se selecionada, é surpreendida pelos apresentadores Arlindo Grund e Isabella Fiorentino. A mulher tem o poder de dizer se quer participar ou não, o que basicamente não faz diferença considerando a enorme pressão ao redor (câmeras, a vontade da família e amigos etc). Depois de aceitar, todos se reúnem em uma sala e assistem imagens da mulher, feitas com câmera escondida, no seu dia a dia. Nas cenas, é nítido o quanto ela se sente bem consigo mesma. Entretanto, os apresentadores usam de uma chacota pesada sobre as cenas, expondo a mulher ao ridículo usando como argumento ”mostrar o quanto essas roupas não valorizam o corpo.” Jogam as roupas dela no lixo, sem deixar de comentar, peça por peça, com mais piadas desnecessárias sobre como aquelas roupas não são ideais pra idade dela, ou como aquela leggin faz com que ela pareça mais gorda.

Com dicas e manequins tamanho 38, mostram então as roupas ”perfeitas” pra ela. As roupas que vão deixá-la magra, mais jovem e mais alta. Sim, pra eles, ser gorda, velha e de baixa estatura é terrível. Quase imperdoável não querer usar mil técnicas para parecer menos como se é. Algumas mulheres, quando reclamavam de algumas roupas sérias, tinham como resposta que aquelas eram as roupas apropriadas pra idade dela, pro peso dela, pro tamanho dela. Que roupas curtas são coisa de piriguete e que só podem ser usadas se forem largas. Ou que mulher baixa tem que usar sapato com o ”peito do pé livre” pra dar a ilusão de que é mais alta e mulher gorda tem que usar manga 3/4 pro braço parecer fino. Dão banho de loja, maquiagem e cabelo. Não existe opção pra quem não gosta de maquiagem. Mesmo que seja uma ”maquiagem natural”, ela tem de estar lá. O que deveria resgatar a autoestima da mulher se torna uma aula de como a mulher deve se anular para agradar a família, os amigos, o marido, que muitas vezes têm vergonha de sair com elas pelas roupas que escolhem. Sim, o programa incentiva que a mulher mude o guarda-roupas, mude o cabelo e a maquiagem para agradar outras pessoas. Sim, o programa reforça a ideia de que mulheres precisam se vestir ao gosto da sociedade e que é preciso camuflar um corpo fora dos padrões. Sim, o programa é assistido por milhares de mulheres que acreditam em tudo aquilo como um modo de ser respeitada, já que não têm o respeito dos outros pelo que são. É humilhante e desanimador que programas assim sejam vistos como instrutivos, onde transformam a velhice em algo de aparência detestável, a gordura como fato a ser escondido e a baixa estatura em ”presente de grego.”

A vontade de parecer mais magra, mais alta ou mais jovem é legítima desde que parta da própria mulher, e não podemos julgá-la. Mas incentivar isso (na TV ou fora dela) como ideal, como o perfeito e único jeito aceitável de ser é preocupante e detestável. Enfiar mulheres diferentes dentro de caixas iguais é ignorar que não somos produzidas em fábricas com moldes pré definidos. É fingir que não temos nossa vontade e nossa verdade. Nós podemos ser baixas, altas, gordas, magras, velhas, jovens…  Somos tudo isso e não aceitamos que continuem nos humilhando. Não queremos ser socadas até caber nas caixas iguais, sangrando pelos cantos contra nossa vontade. Queremos ser tudo. E podemos. Se é nosso corpo, nós escolhemos.