mas vocês já podem votar e trabalhar

”MAS VOCÊS JÁ CONQUISTARAM O DIREITO AO VOTO E AO TRABALHO, NÃO PRECISAM MAIS DO FEMINISMO”

 

O machismo tem meios diversos de se manter presente. Um deles é o pensamento geral de que as mulheres já conquistaram a igualdade e de um jeito muito deturpado, passamos a vida repetindo isso como se de fato o feminismo não fosse mais importante. Muitas pessoas não sabem ainda que feminismo não é uma luta estática e que não teve fim. Feminismo existirá enquanto houver resquícios machistas na sociedade. Enquanto mulheres estiverem, de forma discreta, sorrateira ou nítida, sendo oprimidas. E em ”sendo oprimidas” podemos dissecar: a vítima de estupro que é lida como culpada, os salários muitas vezes menores (conquistamos o direito ao trabalho mas não ao salário igualitário), a sexualidade feminina que só é considerada com recortes, o apagamento de direitos pra mulheres trans*, o apagamento de direitos pra mulheres negras, o padrão de beleza que muda a cada nova sacada da publicidade, a garota de 12 anos que não consegue chegar até a escola, uniformizada, sem ser assediada por um desconhecido na rua, a mulher gorda que tem seu prato vigiado por quem está ao redor, as lésbicas que sofrem estupro corretivo, as bissexuais que são consideradas indecisas, imploradoras de atenção… A mulher que é surrada pelo marido mas não pode denunciar porque foi ensinada que a mulher sábia edifica sua casa. A mulher que denuncia mas que morre antes de conseguir qualquer justiça. A mulher que trabalha o dia todo em uma empresa mas chega em casa e ainda precisa fazer todas as tarefas domésticas sozinha porque o marido está cansado do trabalho. A mulher que é considerada burra por decidir se dedicar aos filhos, a mulher que é considerada sem coração por decidir se dedicar à carreira, a mulher que não quer ter filhos e é tida como cruel, a mulher que não quer se casar e é chamada de amarga, a mulher que não gosta de cozinhar e é xingada de relaxada, a mulher que não se depila e sofre chacota, sendo chamada de nojenta, a mulher que gosta de sexo e é lida como vadia, a mulher que não gosta de sexo e é lida como frígida. A mulher. Ser mulher é o suficiente pra experimentar uma ou mais dessas coisas, e até outras não listadas aqui.

O feminismo ainda é importante porque ainda estamos muito longe do que deveríamos. O feminismo ainda existe porque votar e trabalhar nós podemos, mas dentro dessas 2 possibilidades existem outras muitas que nos são negadas. Podemos votar mas a representação feminina pelos direitos das mulheres na política ainda é mínima. Podemos trabalhar mas as oportunidades no mercado de trabalho são determinadas de formas absurdas, como por exemplo a demissão de mulheres grávidas ou a não-contratação de mulheres trans*. O feminismo ainda é importante porque o machismo ainda tem os tais meios diversos de se fazer tão presente e naturalizado.

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e o seu emprego, faz isso?

A mulher no mercado de trabalho é um tema com milhões de itens para se explorar (salários menores, problemas em entrevistas com perguntas constrangedoras e preconceito de gênero, cor, peso etc). Entre essas questões, tenho visto muitas mulheres próximas reclamando de basicamente a mesma coisa: o que se exige de uma mulher já contratada. Trabalhei em algumas empresas antes de começar a lecionar e também tinha a mesma reclamação, que inclui o tamanho da saia, o quanto a calça é justa, o decote profundo, a maquiagem forte ou fraca, a relação interpessoal com os colegas… Tudo o que uma mulher faz em seu ambiente de trabalho é vigiado.

Certa vez, fui ao trabalho com meia calça ultragrossa preta e um shorts. Largo. Fui chamada e informada que ”o chefe não gostou… é curto e os meninos podem se distrair olhando pra você e vão trabalhar errado.” A represália não foi direcionada a quem estava olhando pras pernas da colega ao invés de trabalhar. Decotes distraem os colegas. Saias distraem os colegas. Quando um homem é repreendido no trabalho por vestir uma bermuda, a justificativa não é ”suas belíssimas pernas vão distrair as colegas.” A desculpa que se usa é A ROUPA ADEQUADA AO AMBIENTE, mas afinal, o que é adequado e isso realmente faz sentido? Faz sentido ter que estar maquiada impecavelmente para a tela do computador, ou em outra empresa, faz sentido ser repreendida por usar alguma maquiagem? A imagem que as empresas buscam das mulheres é de prestadoras de serviços ou garotas-propaganda, ”a cara da empresa”, alguns dirão, ”é preciso que se represente na roupa e beleza o que a empresa quer passar.”

Obviamente, os diversos tipos de profissões exigem, cada um, determinadas coisas, mas sabemos que de um modo geral mulheres são muito mais cobradas já que existe esse consenso absurdo de que estamos no mundo como vaso: devemos estar impecáveis, limpas, lisas, inteiras, embelezando o ambiente. Em lojas de roupas, por exemplo, já nos anúncios para a vaga anunciam que a mulher, para ser contratada, deve ser magra, de determinada altura, com maquiagem, cabelos sempre como nas capas de revista. Em empresas formais, o famoso ”terninho” com camisa e salto e a exigência subliminar para se vestir com roupas que lembram as culturalmente impostas aos homens… ”Se vista como um homem de sucesso para ser um pouquinho mais aceita, mas coloque salto pra que nossos clientes não pensem que você não é feminina.” A feminilidade é barganhada de acordo com os interesses do empregador, nunca a escolha pessoal da empregada é levada em consideração. Assim como as trabalhadoras domésticas, muitas vezes obrigadas ao uniforme… ”o quê as vizinhas vão pensar se você não estiver vestida deixando bem claro o seu lugar? Como vou receber visitas se você estiver vestindo o que você mesma escolheu pra colocar no seu próprio corpo?”

A exigência de determinadas roupas no trabalho já é absurda por si só, independente do gênero, mas para mulheres a cobrança não é só sobre as roupas, mas também sobre a boca, os olhos, o cabelo, as unhas… Já conheci mulheres que durante um processo de assédio sexual foram culpadas pela justiça, pela sociedade, pela família por ”provocarem” o patrão com roupas justas. Até ali a culpa é colocada na vítima. Somos julgadas e manipuladas do momento em que entramos para a entrevista de emprego até o momento em que assinamos nossa saída. Somos abusadas pelo capitalismo que além da exploração geral, ainda nos toma por peças publicitárias de onde trabalhamos, nos forçando a ”ser a cara da empresa, sendo feminina e sexy sem ser vulgar” além de se sentir dono do nosso corpo só por nos pagar um salário (na maioria das vezes,  incompatível com o que o colega homem no mesmo cargo recebe). E não podendo engravidar quando decidimos por medo da demissão ou sofrendo ameaças de demissão quando é preciso buscar o filho doente na escola. Não podendo ter afinidade com um dos colegas homens: ”você quer que o setor todo ache que vocês estão saindo?” ou não podendo se relacionar com qualquer outra pessoa da empresa de forma íntima, como se a escolha não precisasse ser só nossa. Tudo em nós, mulheres, é ameaçador para o capitalismo. Chegou a hora de não sermos mais ameaçadoras. Chegou a hora de sermos o perigo real.

Esquadrão da Moda e as caixas iguais.

 

Programas de TV, de um modo geral, ditam comportamento para sua audiência e nos últimos anos, programas de ”transformação” da aparência feminina têm chamado minha atenção. Resgatar a autoestima é algo positivo, sim, mas tais programas têm usado o resgate da autoestima como desculpa para empurrar a mulher o mais perto possível do padrão de beleza atual. Um desses programas é o Esquadrão da Moda (o nome já me dá arrepios) que exibe sua versão brasileira aos sábados, no canal SBT. Lá, funciona assim: parentes ou amigos inscrevem a mulher no programa (sem que ela saiba) e se selecionada, é surpreendida pelos apresentadores Arlindo Grund e Isabella Fiorentino. A mulher tem o poder de dizer se quer participar ou não, o que basicamente não faz diferença considerando a enorme pressão ao redor (câmeras, a vontade da família e amigos etc). Depois de aceitar, todos se reúnem em uma sala e assistem imagens da mulher, feitas com câmera escondida, no seu dia a dia. Nas cenas, é nítido o quanto ela se sente bem consigo mesma. Entretanto, os apresentadores usam de uma chacota pesada sobre as cenas, expondo a mulher ao ridículo usando como argumento ”mostrar o quanto essas roupas não valorizam o corpo.” Jogam as roupas dela no lixo, sem deixar de comentar, peça por peça, com mais piadas desnecessárias sobre como aquelas roupas não são ideais pra idade dela, ou como aquela leggin faz com que ela pareça mais gorda.

Com dicas e manequins tamanho 38, mostram então as roupas ”perfeitas” pra ela. As roupas que vão deixá-la magra, mais jovem e mais alta. Sim, pra eles, ser gorda, velha e de baixa estatura é terrível. Quase imperdoável não querer usar mil técnicas para parecer menos como se é. Algumas mulheres, quando reclamavam de algumas roupas sérias, tinham como resposta que aquelas eram as roupas apropriadas pra idade dela, pro peso dela, pro tamanho dela. Que roupas curtas são coisa de piriguete e que só podem ser usadas se forem largas. Ou que mulher baixa tem que usar sapato com o ”peito do pé livre” pra dar a ilusão de que é mais alta e mulher gorda tem que usar manga 3/4 pro braço parecer fino. Dão banho de loja, maquiagem e cabelo. Não existe opção pra quem não gosta de maquiagem. Mesmo que seja uma ”maquiagem natural”, ela tem de estar lá. O que deveria resgatar a autoestima da mulher se torna uma aula de como a mulher deve se anular para agradar a família, os amigos, o marido, que muitas vezes têm vergonha de sair com elas pelas roupas que escolhem. Sim, o programa incentiva que a mulher mude o guarda-roupas, mude o cabelo e a maquiagem para agradar outras pessoas. Sim, o programa reforça a ideia de que mulheres precisam se vestir ao gosto da sociedade e que é preciso camuflar um corpo fora dos padrões. Sim, o programa é assistido por milhares de mulheres que acreditam em tudo aquilo como um modo de ser respeitada, já que não têm o respeito dos outros pelo que são. É humilhante e desanimador que programas assim sejam vistos como instrutivos, onde transformam a velhice em algo de aparência detestável, a gordura como fato a ser escondido e a baixa estatura em ”presente de grego.”

A vontade de parecer mais magra, mais alta ou mais jovem é legítima desde que parta da própria mulher, e não podemos julgá-la. Mas incentivar isso (na TV ou fora dela) como ideal, como o perfeito e único jeito aceitável de ser é preocupante e detestável. Enfiar mulheres diferentes dentro de caixas iguais é ignorar que não somos produzidas em fábricas com moldes pré definidos. É fingir que não temos nossa vontade e nossa verdade. Nós podemos ser baixas, altas, gordas, magras, velhas, jovens…  Somos tudo isso e não aceitamos que continuem nos humilhando. Não queremos ser socadas até caber nas caixas iguais, sangrando pelos cantos contra nossa vontade. Queremos ser tudo. E podemos. Se é nosso corpo, nós escolhemos.

 

o desfile de Rick Owens e o incômodo velado

Que sites e blogs de moda são carregados de regras toscas, todo mundo sabe. O Petiscos não fica muito longe disso. Há tempos atrás, um post com muita ironia sobre as roupas eleitas pelas convidadas do AVN Awards, premiação de filmes pornográficos, demonstrou o quanto slut shaming* é tido como ”bom gosto” nas publicações de moda. No dia 27 de setembro, o site que recebe milhões de acessos diários publicou um resumo com fotos sobre a semana de moda de Paris, iniciando com o desfile do estilista americano Rick Owens. Segue o trecho:

”Não dá pra começar a falar sobre o terceiro e quarto dia da semana de moda de Paris de outra forma: só se fala no desfile de Rick Owens! Sabemos que ele tem um estilo mais gótico, podemos até chamá-lo de sombrio, mas com certeza ele conseguiu chamar a atenção desta vez – e não foram pelas roupas! Bom, na verdade ele atendeu a uma certa frustração da maioria mulheres que se sentem em desvantagem quanto à magreza das modelos e o caimento das roupas de desfile. Então a coleção de primavera/ verão 2014 de Rick Owens foi apresentada por um grupo de percussionistas de step dance, ontem em Paris. Quem não conhece, step dance é uma performance em que o corpo é usado como instrumento musical. O resultado impressionou a plateia, mas claro, tudo isso foi tratado para apresentar uma coleção de roupas. Daí surge a pergunta: valeu a pena colocar mulheres reais na passarela ou isso desviou o foco de atenção?”

A ”certa frustração” descrita é real: eu e muitas outras mulheres não nos sentimos representadas nas passarelas, e até mesmo nas lojas, onde encontrar roupas com modelagens para corpos diversos é muito difícil. Não, não tenho nada contra modelos ou pessoas magras e inclusive culpar essas meninas pela pressão que sofrem é absurdo.  Sabemos que o padrão de beleza é reforçado toda vez que um desfile de moda só apresenta pessoas dentro desse padrão, e esse é o mesmo padrão que mutila mulheres para enriquecer empresários. Me senti bem em ver mulheres negras e gordas, em um dos eventos de moda mais importantes do mundo. Mulheres excluídas e marginalizadas socialmente pela aparência ganharam ali algum espaço para mostrar que todas as pessoas se vestem. Todas as mulheres, de uma forma ou de outra, usam roupas e que temos tamanhos diferentes. Não temos certeza se a intenção do estilista foi mostrar corpos diferentes do que se vê em desfiles, dando atenção para o tema ou se foi um jogo de destaque, um modo de ganhar atenção. Apesar disso, acredito que algumas pessoas tenham refletido ao ver imagens do desfile e espero que reflitam muito mais.

A última frase, ”Daí surge a pergunta: valeu a pena colocar mulheres reais na passarela ou isso desviou o foco de atenção?” me faz pensar o quanto precisamos bater na mesma tecla até que entendam. Mulheres com corpos que vemos todos os dias na rua ou no espelho chocam e tiram a atenção das roupas em uma apresentação de moda, e isso é muito sintomático. O texto trata essas mulheres como itens decorativos que atrapalharam a demonstração do produto, e dão a isso um tom tão negativo e velado, como se de fato não valesse a pena trazer um debate sobre isso. Como se não valesse a pena chocar um público acostumado a julgar pelos padrões. Como se não valesse a pena o foco sair das roupas diretamente para as pessoas. Como se não valesse a pena o emponderamento de mulheres, em todas as [nossas] formas possíveis. Não podemos ignorar o quanto a indústria da moda (incluindo esses blogs e sites) afeta negativamente milhares de mulheres todos os dias e devemos ser responsáveis em cada palavra que escrevemos sobre isso. E iremos, certamente, bater nessa tecla até que entendam. Até que mudem.

* slut shaming é o ato de julgar, apontar e caçoar de mulheres por sua liberdade sexual, modo como se vestem, falam e agem.

Bons Costumes: 1925 ainda está aqui

O filme Bons Costumes* baseado no filme de 1928 de Alfred Hitchcock, que por sua vez foi inspirado na peça teatral de  Noël Coward (1925) retrata a mulher com uma visão bem diferente do olhar geral ao feminino da época. Larita, uma americana piloto de corrida de carros, já lidava com julgamentos sociais pela profissão que escolhera. Quando se apaixona e se casa com John Whittaker, um jovem aristocrata inglês de uma família falida, Larita é levada pelo marido para conhecê-los na Inglaterra e o conflito com a sogra começa logo na recepção do casal.

Larita não corresponde ao ideal feminino dos anos 20/30. Veste calças, dirige carros, descolore os cabelos e é alguns anos mais velha que seu marido. A sogra, Veronika, assustada, passa os dias desafiando Larita em uma tentativa ferrenha de desmanchar o casamento do filho, já que sonha em casá-lo com Sarah, a filha do vizinho rico. Em um jogo interessante, Veronika, faz de tudo para manter as aparências de uma família normal e padronizada, sem perceber que mesmo esforçada para preservar tradições, sai do estereótipo de esposa da época. No mesmo núcleo, vemos outras figuras femininas como as irmãs de John: Marion, que se ilude dia e noite sobre se casar com um rapaz que desapareceu e Hilda, apaixonada pelo filho da família vizinha. Comportamento socialmente esperado de todas as mulheres: buscar o casamento. O pai, Jim, é um veterano de guerra saturado de aparências e passa o dia lendo jornal, consertando sua motocicleta e fumando.

O filme se desenrola em uma comédia leve e inteligente. Larita se esforça para mostrar que almejar um casamento com alguém desaparecido é bobagem, que o casamento pelo casamento não é uma boa ideia, no caso de Marion, e que Hilda não precisa suplicar pela atenção do vizinho. Larita passa de nora prreservada para a que mostra sua personalidade verdadeira, como na cena em que, contra a caça de animais, desafia a sogra indo ao evento com a motocicleta de Jim enquanto todos montavam cavalos. Ela já não se importa mais em ser agradável para os padrões da sogra, e é aí que John começa a estranhar a moça. De uma forma ou de outra, ele espera que a esposa se sacrifique por ele e pela família dele. Que more com eles na Inglaterra, apesar de Larita falar constantemente que deseja voltar aos EUA e ter a própria casa. Depois de descobrirem que ela foi julgada e absolvida pela morte do primeiro marido, o clima fica bizarro. Algumas cenas depois ela explica para John que o antigo esposo sofria de câncer e que ela o amava tanto que atendeu seu pedido: envenenou-o para que morresse em paz, sem as complicações da doença.  John bate o pé como o garoto mimado que é e ignora a mulher durante a famosa festa de natal dos Whittaker. Larita então toma uma decisão firme:  devolve o anel de casamento para John e quebra a estátua que fica na porta da frente, tão adorada por Veronika. Nesse momento, notamos o quanto Larita, ainda que amando muito o marido, se coloca em primeiro lugar. Ela percebe que só sobreviveria naquele lugar se fizesse o jogo social esperado, e se recusa. Se recusa a ser o que esperam que ela seja. O sogro, Jim, aproveita a carona e foge também.

Se pensarmos que essa história foi criada em 1925, percebemos que nosso meio social não mudou muito. Ainda, infelizmente, se busca a tradição, a aparência, se espera da mulher o papel de esposa dedicada que se altera para se encaixar em um casamento. Óbvio que um casamento, em suas diversas formas possíveis (mono, poli, hétero, homo…) pode funcionar. É uma decisão pessoal. O questionamento deve ser feito a partir da pressão social para que ele aconteça. Conquistamos muitas coisas, mas apesar disso, uma mulher piloto de corrida nos dias de hoje ainda sofre preconceito. Uma mulher que se recusa a praticar o esperado dela sofre repressão em cada núcleo de sua vida, todos os dias. É vergonhoso que ainda tenhamos que debater isso. É vergonhoso que ainda precisemos, todos os dias, mostrar para o mundo que não, não iremos nos submeter para preservar qualquer conservadorismo.

*Easy Virtue, Inglaterra, 2008. Diretor: Stephan Elliott.

Revista Glamour: o mais do mesmo que ainda é nocivo

Revistas femininas são quase sempre lotadas de fotos de mulheres no padrão de beleza, propagandas glamourosas, produtos luxuosos e dicas de sexo e comportamento absurdas. Ontem, recebi em casa a edição de setembro da Revista Glamour e não me surpreendi com o conteúdo, apesar de ainda estar incomodada. Separei alguns trechos de duas matérias (não vou mencionar quem escreveu cada uma, mas sim criticar os pontos separadamente). Segura na minha mão, gente, que o negócio não tá fácil…

1. Em uma matéria sobre postura ao andar (até aí, ok. Dicas de saúde são bacanas e a coluna pode sofrer com má postura etc) a revista sugere que a mulher ”olhar para o horizonte, mantendo o queixo paralelo ao chão […] funciona como um lifting de pescoço, diminuindo qualquer papada.” Nem preciso dizer o quanto isso colabora pra que mulheres tenham mais um motivo pra preocupação com o corpo, né? Cada uma tem o direito de gostar ou não do que tem no corpo, mas é preocupante que revistas destinadas ao público feminino sigam plantando essas neuras em todas as edições.

Em outro trecho, a revista avisa que ”a não ser que você seja a Gisele Bündchen ou esteja em um clipe da Anitta, rebolar não é legal.” SÉRIO? Assim, a gente rebola quando a gente quiser. A gente anda rebolando se a gente quiser e se liguem na contradição: outro tópico indica que andemos sobre ”uma linha imaginária […] É assim que que as tops andam na passarela.” Quer dizer: não pode rebolar como Gisele, mas pode andar como top model?

2. Ah, os ”guias” infalíveis das revistas femininas… Neste, são mostradas ‘curiosidades’ sobre os homens, entre elas, ”6 coisas que ele adoraria ouvir na cama” como se todos os homens fossem iguais ou ”5 coisas que ele nota em você num piscar de olhos” indicando que o ”para agradar um homem, basta jeans justinho e camiseta.” ALÔ VONTADE PRÓPRIA! PRA QUÊ VOU ME VESTIR PRA AGRADAR UM HOMEM, GENTE? E não para por aí: o item 5 reprova a mulher ”sentar de perna aberta e disparar gírias” que segundo a Glamour, são ”CTT (corta tesão total).” Sabe o que corta tesão, revista? Isso mesmo: cagação de regra sobre o jeito como eu me sento ou sobre a caralhada de palavrões e gírias que eu falo.

Na página seguinte, ainda na mesma matéria, um homem ‘especialista em relacionamentos’ é convidado para escrever sobre ”3 manias femininas que eles amam.” O moço escreve que homens gostam de falar do sexo oposto, de odiar os pegadores e de andar em bando, mas não demonstra que sejam características do ser humano social e no título já fica claro que são ”manias femininas.” como se apesar de fazerem o mesmo, fosse da natureza da mulher. O velho estigma sobre o que é feminino e como mulheres são.

Como disse anteriormente, não me surpreendi. Sei que esse conteúdo é figurinha carimbada em revistas desse seguimento, infelizmente. Apesar disso, meu incômodo também é o incômodo de milhares de mulheres que todos os dias percebem o quanto isso prejudica outras milhares de mulheres que acreditam nessas revistas, que se inspiram através delas e que desejam ser como elas pregam. Espero que um dia eu possa abrir uma dessas revistas e encontrar mais do que regras sem nexo e estereótipos negativos. Espero que um dia essas revistas parem de funcionar como guias perfeitos e se tornem somente um aglomerado de papel com informações sensatas.