Esquadrão da Moda e as caixas iguais.

 

Programas de TV, de um modo geral, ditam comportamento para sua audiência e nos últimos anos, programas de ”transformação” da aparência feminina têm chamado minha atenção. Resgatar a autoestima é algo positivo, sim, mas tais programas têm usado o resgate da autoestima como desculpa para empurrar a mulher o mais perto possível do padrão de beleza atual. Um desses programas é o Esquadrão da Moda (o nome já me dá arrepios) que exibe sua versão brasileira aos sábados, no canal SBT. Lá, funciona assim: parentes ou amigos inscrevem a mulher no programa (sem que ela saiba) e se selecionada, é surpreendida pelos apresentadores Arlindo Grund e Isabella Fiorentino. A mulher tem o poder de dizer se quer participar ou não, o que basicamente não faz diferença considerando a enorme pressão ao redor (câmeras, a vontade da família e amigos etc). Depois de aceitar, todos se reúnem em uma sala e assistem imagens da mulher, feitas com câmera escondida, no seu dia a dia. Nas cenas, é nítido o quanto ela se sente bem consigo mesma. Entretanto, os apresentadores usam de uma chacota pesada sobre as cenas, expondo a mulher ao ridículo usando como argumento ”mostrar o quanto essas roupas não valorizam o corpo.” Jogam as roupas dela no lixo, sem deixar de comentar, peça por peça, com mais piadas desnecessárias sobre como aquelas roupas não são ideais pra idade dela, ou como aquela leggin faz com que ela pareça mais gorda.

Com dicas e manequins tamanho 38, mostram então as roupas ”perfeitas” pra ela. As roupas que vão deixá-la magra, mais jovem e mais alta. Sim, pra eles, ser gorda, velha e de baixa estatura é terrível. Quase imperdoável não querer usar mil técnicas para parecer menos como se é. Algumas mulheres, quando reclamavam de algumas roupas sérias, tinham como resposta que aquelas eram as roupas apropriadas pra idade dela, pro peso dela, pro tamanho dela. Que roupas curtas são coisa de piriguete e que só podem ser usadas se forem largas. Ou que mulher baixa tem que usar sapato com o ”peito do pé livre” pra dar a ilusão de que é mais alta e mulher gorda tem que usar manga 3/4 pro braço parecer fino. Dão banho de loja, maquiagem e cabelo. Não existe opção pra quem não gosta de maquiagem. Mesmo que seja uma ”maquiagem natural”, ela tem de estar lá. O que deveria resgatar a autoestima da mulher se torna uma aula de como a mulher deve se anular para agradar a família, os amigos, o marido, que muitas vezes têm vergonha de sair com elas pelas roupas que escolhem. Sim, o programa incentiva que a mulher mude o guarda-roupas, mude o cabelo e a maquiagem para agradar outras pessoas. Sim, o programa reforça a ideia de que mulheres precisam se vestir ao gosto da sociedade e que é preciso camuflar um corpo fora dos padrões. Sim, o programa é assistido por milhares de mulheres que acreditam em tudo aquilo como um modo de ser respeitada, já que não têm o respeito dos outros pelo que são. É humilhante e desanimador que programas assim sejam vistos como instrutivos, onde transformam a velhice em algo de aparência detestável, a gordura como fato a ser escondido e a baixa estatura em ”presente de grego.”

A vontade de parecer mais magra, mais alta ou mais jovem é legítima desde que parta da própria mulher, e não podemos julgá-la. Mas incentivar isso (na TV ou fora dela) como ideal, como o perfeito e único jeito aceitável de ser é preocupante e detestável. Enfiar mulheres diferentes dentro de caixas iguais é ignorar que não somos produzidas em fábricas com moldes pré definidos. É fingir que não temos nossa vontade e nossa verdade. Nós podemos ser baixas, altas, gordas, magras, velhas, jovens…  Somos tudo isso e não aceitamos que continuem nos humilhando. Não queremos ser socadas até caber nas caixas iguais, sangrando pelos cantos contra nossa vontade. Queremos ser tudo. E podemos. Se é nosso corpo, nós escolhemos.

 

o desfile de Rick Owens e o incômodo velado

Que sites e blogs de moda são carregados de regras toscas, todo mundo sabe. O Petiscos não fica muito longe disso. Há tempos atrás, um post com muita ironia sobre as roupas eleitas pelas convidadas do AVN Awards, premiação de filmes pornográficos, demonstrou o quanto slut shaming* é tido como ”bom gosto” nas publicações de moda. No dia 27 de setembro, o site que recebe milhões de acessos diários publicou um resumo com fotos sobre a semana de moda de Paris, iniciando com o desfile do estilista americano Rick Owens. Segue o trecho:

”Não dá pra começar a falar sobre o terceiro e quarto dia da semana de moda de Paris de outra forma: só se fala no desfile de Rick Owens! Sabemos que ele tem um estilo mais gótico, podemos até chamá-lo de sombrio, mas com certeza ele conseguiu chamar a atenção desta vez – e não foram pelas roupas! Bom, na verdade ele atendeu a uma certa frustração da maioria mulheres que se sentem em desvantagem quanto à magreza das modelos e o caimento das roupas de desfile. Então a coleção de primavera/ verão 2014 de Rick Owens foi apresentada por um grupo de percussionistas de step dance, ontem em Paris. Quem não conhece, step dance é uma performance em que o corpo é usado como instrumento musical. O resultado impressionou a plateia, mas claro, tudo isso foi tratado para apresentar uma coleção de roupas. Daí surge a pergunta: valeu a pena colocar mulheres reais na passarela ou isso desviou o foco de atenção?”

A ”certa frustração” descrita é real: eu e muitas outras mulheres não nos sentimos representadas nas passarelas, e até mesmo nas lojas, onde encontrar roupas com modelagens para corpos diversos é muito difícil. Não, não tenho nada contra modelos ou pessoas magras e inclusive culpar essas meninas pela pressão que sofrem é absurdo.  Sabemos que o padrão de beleza é reforçado toda vez que um desfile de moda só apresenta pessoas dentro desse padrão, e esse é o mesmo padrão que mutila mulheres para enriquecer empresários. Me senti bem em ver mulheres negras e gordas, em um dos eventos de moda mais importantes do mundo. Mulheres excluídas e marginalizadas socialmente pela aparência ganharam ali algum espaço para mostrar que todas as pessoas se vestem. Todas as mulheres, de uma forma ou de outra, usam roupas e que temos tamanhos diferentes. Não temos certeza se a intenção do estilista foi mostrar corpos diferentes do que se vê em desfiles, dando atenção para o tema ou se foi um jogo de destaque, um modo de ganhar atenção. Apesar disso, acredito que algumas pessoas tenham refletido ao ver imagens do desfile e espero que reflitam muito mais.

A última frase, ”Daí surge a pergunta: valeu a pena colocar mulheres reais na passarela ou isso desviou o foco de atenção?” me faz pensar o quanto precisamos bater na mesma tecla até que entendam. Mulheres com corpos que vemos todos os dias na rua ou no espelho chocam e tiram a atenção das roupas em uma apresentação de moda, e isso é muito sintomático. O texto trata essas mulheres como itens decorativos que atrapalharam a demonstração do produto, e dão a isso um tom tão negativo e velado, como se de fato não valesse a pena trazer um debate sobre isso. Como se não valesse a pena chocar um público acostumado a julgar pelos padrões. Como se não valesse a pena o foco sair das roupas diretamente para as pessoas. Como se não valesse a pena o emponderamento de mulheres, em todas as [nossas] formas possíveis. Não podemos ignorar o quanto a indústria da moda (incluindo esses blogs e sites) afeta negativamente milhares de mulheres todos os dias e devemos ser responsáveis em cada palavra que escrevemos sobre isso. E iremos, certamente, bater nessa tecla até que entendam. Até que mudem.

* slut shaming é o ato de julgar, apontar e caçoar de mulheres por sua liberdade sexual, modo como se vestem, falam e agem.