o reconhecimento do privilégio cis

Todos que estamos envolvidos em causas sociais sabemos da relação entre privilégio e opressão, porém nem todos nós sabemos que uma mesma pessoa pode ser oprimida e também ter privilégios. Eu sou mulher, faço parte da minoria que é oprimida em muitos aspectos, vivendo em uma sociedade patriarcal e machista. Ao mesmo tempo, sou branca em uma sociedade com estruturas racistas e colonizadoras. Sou oprimida por ser mulher, mas faço parte de uma maioria em direitos por ser branca, logo, eu também faço parte como opressora. Independente de discordar do racismo, de repudiar o racismo, em aspectos sociais eu tenho privilegios garantidos, os quais muitas companheiras de luta feminista, negras, não possuem. A premissa de privilégios sociais é a mesma em qualquer relação oprimido x opressor, assim como na questão do privilégio cis. Não existe uma pirâmide da opressão ou uma lista de quem é mais ou menos oprimido, e justamente por isso cada um de nós pode ser os dois. Eu, enquanto mulher cis, vivo em uma sociedade que além de racista, é transfóbica. Que além de racista e transfóbica, é capacitista e classista… Eu enquanto mulher cis branca de classe média convivendo com pessoas com deficiência física, negras, trans* e pobres, em uma sociedade que nega direitos a todos eles, tenho sim privilégios

Tenho visto nos últimos meses uma onda imensa de transfobia dentro do movimento feminista, e embora eu não me sinta apta pra falar sobre o que pessoas trans* sentem em sua totalidade, tenho tentado reconhecer meu privilégio nessa questão.  Não é tão difícil de entender se pensado racionalmente, deixando de lado qualquer emoção romantizada sobre militância e teorias (que não são sagradas e podem ser questionadas por outras mulheres). Se vivo, sendo cis, em um país onde pessoas trans* são mortas simplesmente por serem trans*, o privilégio é nítido. O machismo mata mulheres cis todos os dias (e mulheres trans* também são mortas pelo machismo, já que a transfobia está diretamente ligada ao que a sociedade espera do ”feminino”), sim, já que homens cis detém o privilégio de não serem mortos só por serem homens. Entretanto, mulheres cis são reconhecidas como mulheres pela sociedade, enquanto que mulheres trans* (assim como todas as pessoas trans e não binárias) passam a vida buscando o mínimo reconhecimento social e respeito, e são mortas por isso. Ninguém duvida de nós, cis, quando dizemos que somos mulheres. Ninguém duvida que uma mulher cis seja mulher independente de sua classe social ou qualquer outro aspecto de vivência, sempre somos reconhecidas como mulheres, enquanto as pessoas trans* não conseguem a mesma garantia da sociedade toda. Ou seja, mulheres trans não são reconhecidas, além de serem mortas, espancadas, expulsas de casa, humilhadas, sexualizadas em critérios abusivos e com vários direitos essenciais negados por serem trans*.

Quando nascemos, somos designados, socialmente, a um gênero de acordo com nosso genital. Sim, a sociedade faz isso, mas isso não quer dizer que tenhamos que aceitar. Nós, feministas, não aceitamos que a sociedade nos diga o que devemos vestir, comer, falar, gostar… Então por qual motivo aceitaríamos que outras pessoas fossem designadas com um gênero que não lhes condiz? Se combatemos a imposição social sobre nossos corpos seria então uma hipocrisia nossa NÃO combater a imposição de gênero no nascimento (não só no nosso, como no nascimento dos outros)? Se lutamos todos os dias para que reconheçam os privilégios sobre nós, devemos também reconhecer os nossos sobre outras mulheres.  Temos o que a sociedade espera de nós: somos mulheres com vagina. Esperando isso, a sociedade vai rechaçar qualquer mulher que não tenha uma e aí começa o privilégio cis. Nossas vaginas não são opressoras, a sociedade é, mas por possuirmos uma, nunca duvidam do nosso gênero. Tenho amigas e amigos trans* que lutaram a vida toda para o reconhecimento. Que desde muito cedo sofrem hostlização da família, amigos, de desconhecidos, tudo isso por não se encaixar no que o mundo espera. Assim como nós, pessoas trans* também lutam contra uma sociedade com estruturas excludentes, lutam pela sobrevivência. Ter o mínimo de empatia, respeito, inclusão e colaboração com pessoas trans* não é só uma boa ideia para as pautas feministas, como também é nossa obrigação enquanto seres humanos que lutam por direitos humanos.

 

 

ps.: em muitos textos e relatos pela internet presenciei pessoas dizendo que pessoas trans* são estupradoras em potencial, pedófilas, homens de saia e milhares de outros absurdos. Então gostaria de dizer que ainda que algumas pessoas trans* cometam erros, assim como todos nós, são humanas e merecedoras de reconhecimento de seu gênero. Se reconhecemos o gênero de qualquer pessoa cis, independente de seus atos, também devemos reconhecer o gênero de pessoas trans*. Não vejo ninguém dizendo que TODAS as mulheres cis são assassinas porque uma mulher cis assassinou alguém. Não vejo generalizações criminais quando se fala de mulheres cis, então sejamos coerentes e não misturemos o gênero de alguém com sua conduta de caráter, e nem julguemos toda uma causa social com base em algumas pessoas que possam fazer parte dela.

 

ps2: se informar sobre o que não conhece é importante, então as dicas pra quem quiser se informar mais sobre as questões trans* são:  textos da Daniela Andrade, publicados no facebook dela e o site transfeminismo, que aborda o feminismo interseccional pela visão trans*.

sou feminista: posso emagrecer?

Emagrecer ou não emagrecer? Eis a questão femista. A resposta pode ser um sonoro não para alguns grupos, já outros acreditam sim. Eu pessoalmente acredito que é algo que somente a mulher pode decidir por si mesma. Muitas mulheres escolhem emagrecer por questão estética mas também devemos lembrar que existem outros motivos que levam alguém ao emagrecimento, e que cabe somente à ela decidir.  Sempre que falo isso em algum debate feminista ou em alguma discussão pela internet, recebo algumas respostas, então vou colocar aqui observações sobre elas e sobre o quanto nosso limite não é o mesmo limite do outro:

”tem que ensinar a mulher a se aceitar, não a emagrecer” 

Tem que ensinar a se aceitar, tem que ensinar a se amar, tem que ensinar que a mulher não é um robô e que pode sim tomar a decisão que achar mais adequada pra ela, pra vivência dela. Eu aceito partes do meu corpo e não aceito outras. Já odiei partes que hoje amo e já amei partes que hoje odeio. Não é algo estático então depende exclusivamente do tempo da própria mulher pra se gostar, não dá pra impor amor próprio, e enquanto esse amor não é definitivo, o conforto pessoal deve ser preservado.

”feminista que quer emagrecer se vende pro sistema”

Todos nós estamos inseridos em um sistema que nos oprime em diversos níveis. Mesmo que contra, não estamos totalmente livres de praticar coisas que colaborem com o sistema pois fazemos parte dele. Colaborando com o sistema ou não, não podemos ignorar que pessoas têm sentimentos, sensações… Passamos a maior parte da vida recebendo mensagens de que emagrecer é melhor do que ser gorda e isso não se desconstrói de um dia pro outro, não se  injeta nas pessoas a sensação de que elas já se amam e se aceitam. Isso leva tanto tempo pra algumas mulheres e pouco tempo pra outras, portanto padronizar quem não deve emagrecer é um tipo de opressão, ainda que não estrutural, mas também fere o tempo pessoal de cada mulher pra lidar consigo mesma. Ser xingada, humilhada, ridicularizada são só algumas das coisas pelas quais as mulheres fora do padrão passam, temos que combater o sistema que trata as mulheres assim como se fosse justo, não combater as mulheres que buscam não sofrer mais dessa forma.

”é hipocrisia ser feminista e querer perder peso”

Feministas não são pessoas exclusas do restante da sociedade. Nós também estamos diariamente em contato com os padrões internalizados em nós desde que nascemos. Lutamos pela liberdade e por direitos não nos torna blindadas automaticamente. Feminismo é um movimento social e como todo movimento social, envolve pessoas. Obviamente o ideal é que todas nós tenhamos conforto em ser como somos, longe dos padrões, mas um ideal não é realizado sem respeito ao tempo que isso leva pra acontecer.

”se quer emagrecer e é feminista, então é libfem (feminista liberal)’

Primeiro que feministas liberais também são mulheres e também são feministas, então não usem isso como ”ofensa”. Segundo que não acredito que seja muito inteligente dizer para uma mulher o tipo de feminismo que ela prefere, sem que ela tenha dito expressamente. Terceiro que ninguém está no corpo, lugar e vivência da feminista que quer emagrecer pra saber como ela se sente exatamente. Ninguém pode dizer pra uma mulher se ela pode ou não emagrecer por ser feminista pelo simples fato de que não faz parte do seu direito enquanto ser humano julgar a decisão de alguém.

 

Nós temos uma vida com começo, meio e fim, seria de um egoísmo absurdo exigir que uma feminista que quer emagrecer não o faça, já que o nosso tempo de vida é finito e até o fim chegar, somente ela sentirá o desconforto de passar a vida se sentindo inadequada. Devemos sim incentivar que todas as mulheres percebam o quanto seus corpos não são errados, devemos sim mostrar que tudo o que sabemos sobre beleza foi construído pela opressão, tanto do patriarcado quanto do capitalismo. Devemos sim mostrar que se amar é parte essencial para acabar com o machismo, entretanto estamos lidando com pessoas e certamente respeitar o limite, espaço e conforto delas em suas vivências é o primeiro passo para a sororidade.

 

 

 

 

 

 

mas vocês já podem votar e trabalhar

”MAS VOCÊS JÁ CONQUISTARAM O DIREITO AO VOTO E AO TRABALHO, NÃO PRECISAM MAIS DO FEMINISMO”

 

O machismo tem meios diversos de se manter presente. Um deles é o pensamento geral de que as mulheres já conquistaram a igualdade e de um jeito muito deturpado, passamos a vida repetindo isso como se de fato o feminismo não fosse mais importante. Muitas pessoas não sabem ainda que feminismo não é uma luta estática e que não teve fim. Feminismo existirá enquanto houver resquícios machistas na sociedade. Enquanto mulheres estiverem, de forma discreta, sorrateira ou nítida, sendo oprimidas. E em ”sendo oprimidas” podemos dissecar: a vítima de estupro que é lida como culpada, os salários muitas vezes menores (conquistamos o direito ao trabalho mas não ao salário igualitário), a sexualidade feminina que só é considerada com recortes, o apagamento de direitos pra mulheres trans*, o apagamento de direitos pra mulheres negras, o padrão de beleza que muda a cada nova sacada da publicidade, a garota de 12 anos que não consegue chegar até a escola, uniformizada, sem ser assediada por um desconhecido na rua, a mulher gorda que tem seu prato vigiado por quem está ao redor, as lésbicas que sofrem estupro corretivo, as bissexuais que são consideradas indecisas, imploradoras de atenção… A mulher que é surrada pelo marido mas não pode denunciar porque foi ensinada que a mulher sábia edifica sua casa. A mulher que denuncia mas que morre antes de conseguir qualquer justiça. A mulher que trabalha o dia todo em uma empresa mas chega em casa e ainda precisa fazer todas as tarefas domésticas sozinha porque o marido está cansado do trabalho. A mulher que é considerada burra por decidir se dedicar aos filhos, a mulher que é considerada sem coração por decidir se dedicar à carreira, a mulher que não quer ter filhos e é tida como cruel, a mulher que não quer se casar e é chamada de amarga, a mulher que não gosta de cozinhar e é xingada de relaxada, a mulher que não se depila e sofre chacota, sendo chamada de nojenta, a mulher que gosta de sexo e é lida como vadia, a mulher que não gosta de sexo e é lida como frígida. A mulher. Ser mulher é o suficiente pra experimentar uma ou mais dessas coisas, e até outras não listadas aqui.

O feminismo ainda é importante porque ainda estamos muito longe do que deveríamos. O feminismo ainda existe porque votar e trabalhar nós podemos, mas dentro dessas 2 possibilidades existem outras muitas que nos são negadas. Podemos votar mas a representação feminina pelos direitos das mulheres na política ainda é mínima. Podemos trabalhar mas as oportunidades no mercado de trabalho são determinadas de formas absurdas, como por exemplo a demissão de mulheres grávidas ou a não-contratação de mulheres trans*. O feminismo ainda é importante porque o machismo ainda tem os tais meios diversos de se fazer tão presente e naturalizado.

depoimento não-binário: todos os lados de um ser humano

Graziela Magnani (@aocaleidoscopio no twitter) escreveu esse texto lindo e abri as portas e janelas desse blog para publicá-lo.Cada palavra, cada ponto, cada sentimento desse texto merece toda nossa atenção e empatia:

” Hoje eu me vejo como mulher. Não somente hoje, mas durante os 19 anos que vivi. Desde sempre vi a imagem de ser mulher por uma ótica inconformada. Quando era pequena, usava as roupas do meu irmão e as maquiagens da minha mãe. Brincava e corria, sujava meus vestidinhos e adorava camisetas listradas e largas. Apontavam que eu era bruta, que eu não sabia ser feminina. Não me conformei nunca com isso. Cresci e continuei no mesmo exercício, que com o passar dos anos se desenvolveu a questionar todo tipo de agressão patriarcal. “Não é justo que mulher tenha que fazer certas coisas. Não é justo que mulher tenha seus direitos cerceados. Não faz sentido mulher ser desrespeitada, muito menos ser morta por simplesmente existir.” Mas nos últimos meses provei na carne uma das maiores injustiças: a sociedade ter de dar um selo de aprovação para conceder alguém o “ser mulher”. A mulher não se define pelos genitais. Para ser mulher, não é preciso usar batom, tão menos saia. Não precisa ter buceta, não precisa ter uma voz delicada. Existem mulheres de barba, existem mulheres com pinto, existem mulheres onde nós sequer imaginamos pois vivemos numa sociedade não só patriarcal como cissexista. A maior agressão de todas é definirem nosso gênero antes mesmo de podermos pensar por nós mesmos. A maior agressão de todas é a normatização do termo “sexo biológico”. A partir do momento que você nasce, a sociedade espera que você aja de tal modo. Quem se descobre trans* no meio do processo está fadado. Fadado a sofrer múltiplas e infinitas restrições de direitos básicos, de respeito, de amor, de compreensão. Fadado ao apagamento, esquecimento, marginalização, silenciamento. Somos discriminadas, discriminados, discriminadEs por sermos quem somos. A maior guerreira é a mulher trans*. Sim, trans com asterisco. Pois mesmo dentre as identidades trans* existe um apagamento GIGANTE das identidades que fogem do binarismo de gênero, o “clássico” homem e mulher. Durante toda minha vida sofri um questionamento sobre o que eu era, nunca obtive resposta. Nossas identidades são silenciadas, nossa vivência, horrorizada. Hoje me classifico como gênero fluído, um tipo de identidade não binarista. Isso quer dizer que me vejo hora como homem, hora como mulher. Agora vocês me perguntam: o que a mulher tem a ver com pessoas trans*, inclusive as não binárias? Simples: todes nós temos nossos gêneros marginalizados, de uma forma ou outra. A mulher é marginalizada pois tratam-na como objeto, subjetiva ao homem. As pessoas trans* são marginalizadas, pois aos olhos da sociedade nós não existimos. A mulher cis sofre feminicidio para a manutenção do poder patriarcal. A mulher trans* sofre feminicidio por existir. Por ter sua identidade transformada em abominação. O mesmo com pessoas não binárias. A partir desse pensamento bem resumido, não seria necessária uma UNIDADE para combater o CIStema? Pois o patriarcado se mostra perigoso, mas tão perigoso quanto ele é o cissexismo, é o binarismo. O patriarcado subjulga as mulheres; o cissexismo agride as pessoas trans*; o binarismo é tão posto que é como se simplesmente não existíssemos. É sobre o que menos se fala dentro do movimento feminista como um todo. Fui feminista por 5 anos e só ano passado descobri sobre identidades não binárias. Eu sou homem, eu sou mulher. Eu uso maquiagem, uso roupas “masculinas”, uso vestido quando sou homem, uso bermuda e regata quando sou mulher. Uso o que eu quero quando tenho vontade, e isso não define minha identidade de gênero. O que vestimos, como aparentamos não tem nada a ver com ninguém a não ser nós mesmos. O cissexismo tem que acabar, o binarismo tem que acabar. Pessoas são invisibilizadas por isso. Quantas mulheres trans* existem no mundo, sem saber que são mulheres simplesmente pq gostam da sua barba, do seu pênis, do jeito que veste? Nossas identidades vão além da aparência. Nós somos o que nós falamos que somos, e não o que determinam que somos. E eu determino que mesmo gênero fluido, sou mulher e não saio da luta. Todo o meu amor, todo o meu apoio aos gêneros marginalizados: as mulheres cis, as mulheres trans*, homens trans*, genderqueers e etc. Juntes nós conseguiremos acabar com toda a opressão. A revolução será intersseccional, transfeminista ou não será”

das coisas que o calendário não conta

Durante essa semana eu gravei um vídeo sobre o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Falei ali algumas coisas mas certas pautas devem ser repetidas em todos os espaços possíveis.

Quando eu era criança, voltei muitas vezes da escola com uma flor de papel crepom e um cartão escrito FELIZ DIA DAS MULHERES com lápis cor-de-rosa. Chegava em casa e saía com meu pai pra comprar um sapato ou outra coisa que minha mãe pudesse gostar. Cresci então com a ideia de que era um dia de alegria, um dia pra eu saber como era legal ser mulher e aquelas moças que morreram carbonizadas na fábrica há muitos anos atrás significavam que eu não precisava mais me preocupar por ser menina, elas tinham sofrido pelas que viriam. Aí no início da vida adulta me deparei com o feminismo. Quando a gente tropeça na pedrinha da consciência, cai, rala o joelho e não quer remédio ardente. A gente quer é uma calçada que preste. Percebi que aquelas mulheres tinham sim um peso importante pra todas as outras que viriam: elas morreram lutando por direitos, e quantas de nós ainda morrem hoje pela falta deles? Quantas de nós morrem nas mãos de companheiros violentos, de abusadores impunes? Por vezes morremos nas nossas próprias mãos, pra ter algum alívio. Um dia em um ano. Um dia em que nos dão rosas, chocolates, presentes, elogiam nossa essência em um comercial de perfume, e esperam que nós fiquemos felizes. Um ano inteiro de padrões, cobranças, mortes, surras, racismo, lesbofobia, bifobia, misoginia, transfobia… Vítimas sendo culpadas, muita homofobia motivada pelo machismo… Um dia pra nos dar flores e nos parabenizar por algo que querem que sejamos.

Dia da Mulher não é um dia de festejar, é um dia pra se apontar a dor. Não se pode desejar ”feliz dia da mulher” pra nós se felicidade é um estado no qual raramente estamos inseridas quanto aos direitos. Não estamos felizes quando nos negam direitos reprodutivos. Não estamos felizes quando nos culpam pelos abusos. Não estamos felizes quando nos cobram corpos que mudam de acordo com a necessidade do capitalismo.  Não estamos felizes quando o tamanho da nossa saia decide se um estranho é culpado ou não por ter nos tocado sem a nossa permissão. Não estamos felizes quando mulheres que amamos são demitidas do emprego quando engravidam. Não estamos felizes quando recebemos nosso holerite. Não estamos felizes com rosas sendo compradas e entregues por mãos que nos tocam no trem lotado. Não estamos felizes com a igreja e o governo decidindo se devemos ou não ter filhos. Não estamos felizes e não vamos ficar só por receber uma rosa no dia 8 de março.

Não estamos felizes quando nossas crianças estão aprendendo na escola que dia da mulher é só pra dar parabéns pra mamãe, por lavar a louça e cuidar do papai. Ou pra dar parabéns pra irmã mais velha, por trabalhar o dia todo com saltos imensos nos pés, mesmo que ela chegue todos os dias em casa reclamando da dor, mas a empresa exige ”elegância.” O calendário te mostra o dia da comemoração, mas não te conta a história e não te atualiza do presente.  Eu estava feliz levando aquela rosa de crepom pra minha mãe por achar que ser mulher era maravilhoso. E até é, mas não nesse mundo. Não hoje.

feminismo diagonal: o início e o não fim

Há algumas semanas atrás eu e algumas amigas feministas estávamos conversando sobre como não nos identificamos totalmente com nenhuma corrente do feminismo, embora tenhamos opiniões que se cruzam com partes de algumas (naturalmente, já que convivemos diariamente com companheiras de diferentes vertentes e aprendemos o tempo todo com todas elas). Dessa conversa nasceu um grupo no facebook chamado FEMINISMO DIAGONAL. Ok. Inicialmente o grupo surgiu pra que elas, eu, amigas e amigos nossos, conhecidos entre si ou não, pudéssemos debater essas ideias entre nós. Depois de poucos dias, amigos e amigas foram adicionando mais amigos e amigas de todos os tipos de cor, religião,  gênero, idades, visões políticas etc. Muita gente estava ali então regras foram criadas pra boa convivência do grupo, e essas regras foram baseadas nessas ideias que nós temos sobre feminismo, afinal, é um grupo fechado e como todos os outros grupos fechados, tem regras própria. Não se pode agradar todas as pessoas, então do mesmo modo que saí de muitos grupos por não me sentir segura neles, entendo quem não quis ou não quer ficar no grupo diagonal por não se sentir bem. Ninguém precisa concordar comigo, com o grupo ou com qualquer coisa no mundo. E inclusive está escrito em letras garrafais na descrição o objetivo do grupo e que auto-preservação importante. Eu não me sinto segura em muitos espaços feministas e me auto preservo deles sem precisar unir pessoas para caçoar de quem está no grupo ou concorda com ele.

Depois de observar todos os debates e conversas que diariamente ocorrem no grupo, decidi que meu TCC seria sobre isso, com problematização de coisas que discordo nas correntes e posteriormente, no mestrado, a apresentação de propostas alternativas para a militância. Vejam bem, eu me considero uma mulher feminista e militante. Como TODAS as mulheres, eu TENHO o direito a escrever um trabalho sobre minha vivência no feminismo. Como TODAS as mulheres, eu tenho o DIREITO de ter minhas ideias e não me concordar com outras ideias. Vocês também têm o direito de não concordar com as minhas, só não podem se unir pra fazer chacota e me tratar com desprezo e deboche por eu propor algo. Em que mundo é considerável que pessoas de uma causa hostilizem outras que se dispõem a fazer algo? Em que lugar de uma causa social as próprias militantes julguem, apontem, fofoquem e mintam sobre uma companheira de causa que criou um grupo no facebook e escolheu um tema pro TCC com base em ideias próprias? Ideias essas que SIM, JÁ FORAM EXPOSTAS PARA ACADÊMICAS DA ÁREA QUE NÃO SÓ ABRAÇARAM A IDEIA COMO SE DISPUSERAM A PRODUZIR MATERIAL COMIGO. E mesmo que eu não fosse estudante da área e mesmo que eu não estivesse planejando colocar minhas ideias no papel, eu AINDA TERIA TODO O DIREITO de pensar por mim mesma, eu ainda teria todo o direito de fazer minha militância pessoal. Mas o tema pra quem é desonesto só serve pra espalhar mentiras e fofocas. Todos os dias, recebo inbox com prints e mensagens de pessoas indignadas pela forma como estão apontando pra mim com base em mentiras e fanatismo. Todos os dias eu recebo perguntas hostis no ask.fm com tom de deboche, supondo que eu sou libfem sendo que: se eu me identificasse totalmente com feminismo liberal, estaria assumindo isso com a mesma coragem que estou aqui dizendo que não sou e que não preciso ser. Outras foram além, insinuando que não sou feminista por não ser radfem ou libfem. Como se só essas duas possibilidades existissem. Como se eu não pudesse ser minha própria possibilidade. Como se minha vivência pessoal não valesse absolutamente nada só por eu não me identificar com determinados posicionamentos, assumidos por essas pessoas que me ofendem e humilham simplesmente por não ser como elas. E são as mesmas pessoas que erguem suas placas sobre sororidade mas que só abaixam a placa e carregam no colo quem lhes convém. São as mesmas pessoas que panfletam sororidade mas que selecionam currículos de militância e só abraçam as mulheres que colocam ali o que elas querem ler, ouvir, dizer. Que tipo de sororidade é essa que cala uma mulher de forma tão arbitrária e covarde? Que tipo de sororidade é essa em que suas praticantes me atacam no Ask, mas quando retiro a opção de enviar mensagens em anônimo, somem? Que tipo de sororidade covarde, mentirosa, seletiva e interesseira é essa? Se eu não sou acolhida por pessoas que agem dessa forma, então não tenho razões pra achar que estou no caminho errado, já que não faço feminismo pra ganhar palmas e muito menos preciso de aprovação de qualquer pessoa que seja pra lutar no feminismo.

Perdi tempo demais da minha militância sofrendo por me sentir silenciada e humilhada por outras mulheres, mas decidi escrever isso aqui pra expor a situação, de modo que quem me conheça através dos boatos desonestos tenha minha versão dos fatos. Eu me recuso a ficar prostrada servindo minhas costas como degrau pra quem precisa de escada pra brigar. Eu me recuso a ceder ao incômodo de vocês, eu me recuso a ceder aos ataques. Eu não tenho medo de enfrentar todos os dias o patriarcado com a minha militância e também não tenho medo de enfrentar todos os dias pessoas desonestas, pois sei que elas estão distribuídas por todos os lugares, inclusive nas causas sociais. EU ME RECUSO A FICAR CALADA POR NÃO AGRADAR VOCÊS. Eu me recuso a sufocar minhas ideias pessoais por não ter a aprovação de pessoas mesquinhas. Eu me recuso a ignorar as muitas mensagens que recebo de pessoas me agradecendo por ter apresentado o feminismo à elas, por ter tentado ajudá-las e acolhê-las, e tenho muito orgulho disso. Eu me recuso a parar de lutar por essas pessoas e pelas que ainda vão conhecer o feminismo através do meu trabalho e do trabalho de quem está lutando pra conseguir direitos e dignidade, ao invés de estar perdendo tempo e energia atacando pessoas por pura vontade de se alimentar de brigas e precisar disso pra se sentir importante. Eu me recuso a não ajudar qualquer uma de vocês que me atacam hoje, como nunca me recusei e nunca o farei pois a minha sororidade não é seletiva e eu luto também por vocês.

FEMINAZI: o outro lado do termo

Eu sempre achei o termo ”feminazi” incoerente e ofensivo. Nunca escrevi sobre por não me sentir à vontade pra enfrentar um batalhão de pessoas dizendo que o termo foi tomado e seu significado modificado. Continuo achando o termo desrespeitoso com vítimas do nazismo, e comentei no facebook que gostaria de ler um dia a opinião de alguma feminista judia/com família judia a respeito disso.

A maravilhosa  Amanda Szajnbok, com família fugida da Polônia, respondeu com um relato cortante e que nos alerta sobre o termo, muito utilizado dentro e fora da militância:

 

”O termo foi cunhado por aquele radialista republicano, Rush Limbaugh. Que (além de ser, obviamente, anti-mulher (e sobre ele não é “sexista”, é anti-mulher mesmo)) é antissemita. Só fica isso declarado porque parte de um misógino antissemita uma das coisas mais ofensivas que você pode chamar uma feminista (judia, especialmente).
Um pouco de contexto. Sem me alongar nos rolos da história da minha família, vou falar só o básico, pra explicar como isso me afeta pessoalmente. Minha família veio da Polônia. Meu bisavô tinha casado com minha bisavó em segundo casamento (a esposa anterior morreu no parto da primeira filha). Eles tinham, então, essa menina do casamento anterior e uma recém-nascida. Minha bisavó já estava grávida de outro bebê (o primeiro hominho). Foi nessa situação que ela percebeu que a coisa ia ficar feia na Polônia pros judeus e meu bisavô ficava de “deixa disso, vai dar nada” e eles foram ficando por lá. Num certo ponto, ela disse que já tinha dado tempo demais e que eles iam fugir e pronto – ele querendo ou não. Naquela altura, a coisa já não estava linda pros judeus na Polônia, então eles foram “clandestinos”. Minha bisavó costurou moedas de ouro na barra da saia pra poder levar algum dinheiro e precisou pular muro, se esconder, fazer uma viagem longuíssima de navio (estando grávida, diga-se de passagem). Só que a menina recém-nascida não tinha como ser levada junto, era impossível. Ela ficou pra trás. Deixaram a bebê com uma irmã da minha bisavó e eles acabaram morrendo em gueto (nunca foram pra campo de concentração, pelo que consta o registro, mas é difícil de saber porque os registros se perderam/eram precários, mas tudo indica que foi no gueto de Varsóvia) (pelo amor de deus, eu espero que não tenham ficado em Auschwitz – ou qualquer outro campo – e pode parecer frescura, mas me dá vontade de chorar de escrever isso, sério). Chegaram ao Brasil sem falar uma palavra de português e precisaram se reinventar.
Já deu pra entender, então, como esse termo me afeta num nível pessoal. Minha bisavó foi do caralho. Minha bisavó precisou fugir dos nazistas na marra, sacrificando tanta coisa e se colocando em risco. Ela foi feminista. E quando eu ouço “feminazi”, eu sinto que ela é desrespeitada. Sinto que ela é apagada e já teve gente o suficiente no mundo e na história querendo fazer isso. Ela e tantas outras.
Mas também tem algo não ~tão~ pessoal (e foi mal aí por entrar nesse nível, porque sei que aquele pedaço não foi uma resposta tão geral de como “os judeus” se sentem, mas é muito honesto pra mim). Hitler perseguiu as feministas (ou o que tinha de equivalente na época, claro) também. As mulheres judias foram esterilizadas, enquanto aquilo foi economicamente viável, e várias experiências cruéis foram feitas justamente nas mulheres judias, negras, homossexuais, ciganas ou comunistas. Esse termo apaga essas moças também. Seria tão ofensivo quanto dizer nazijudeu. Não é a toa que ninguém usa esse termo, ele é anacrônico e violento.
Eu sei que feminazi é algo que ofende todas as mulheres e feministas, mas as judias (acho que) em especial. Ser chamada de nazista – o grupo que matou a minha família, caralho, e que me mataria hoje numa boa – é uma dupla opressão. Eu não fico ofendida porque o termo é estúpido (e é estúpido por motivos óbvios; lutar pra ser tratada como humana, não é minimamente comparável a cometer um genocídio etc). Mas a minha ofensa caminha com a noção de que estão me comparando com o que mais fez mal pro “meu povo”, pra minha família. Quando me chamam de feminazi, me comparam com o general que matou minha tia-avó que era só uma recém-nascida. Esse termo me violenta. Comparam minha bisavó com o assassino da filha dela. Esse termo violenta minha bisavó. Esse termo violenta os judeus como um todo porque apaga e violenta as suas mulheres, tantas vezes tão corajosas.
Nas primeiras vezes que eu lia esse termo, eu me sentia ofendida e agredida. A minha reação era defensiva e de raiva. Cada vez mais, eu só fico triste. De verdade.

(p.s. – eu gostaria de dizer que sou uma pessoa melhor e não me incomodo, mas é mentira. Me afeta muito)”