Cauê Moura, o feminismo e minha resposta

Olá Cauê Moura, tudo bom, moço?

Sobre aquele seu vídeo sobre feminismo, resolvi esclarecer algumas coisas. Talvez a intenção tenha sido boa, e eu espero que sim, mas vou te dar uns toques sobre alguns pontos:

– o kinder ovo rosa e o sexismo: é, moço. eu sei que é meio complicado entender isso mas o fato de um produto para crianças se dividir em ”azul pra menino e rosa pra menina” vai muito além do fator comercial. Isso mostra o quanto nossa sociedade quer separar crianças em apenas 2 tipos, e olha que ainda tem as questões dos brinquedos do kinder ovo, que reforçam mais ainda a ideia de ”coisas de menina e coisas de menino” e isso desconsidera que crianças são infinitamente possíveis.

– botar um vestido no filho que foi pra escola: isso também é complicado de entender. Não se sinta mal. Sim, a maioria das pessoas acha absurdo vestir um menino com vestido, e nem pensam sobre isso. Sim, conheço mulheres que vestiriam o filho com vestido. Sim, isso aconteceria se a vontade da criança fosse essa, e com a responsabilidade dos adultos em explicar pra criança o quanto isso é ok, e ensiná-lo a enfrentar qualquer piada babaca que ouvisse por isso. Conheço mulheres que pintaram a unha de seus filhos com esmalte porque eles pediram e sim, essa desconstrução é importante porque se a gente raciocinar, não faz sentido um pedaço de pano (ou um produto pras unhas) ser exclusivamente coisa de mulher. Eu faria isso? Sim.

– O argumento da falta de giromba: é, isso nem é um argumento, é só um ”não sei mas como debater com vocês feministas, então vou dizer que é tudo mal comida, falta de rola, que se vocês estivessem dando não estariam lutando por direitos iguais” Que bom que você não usou essa, né?

– o termo feminismo e a marcha das vadias: moço cauê, esses nomes confundem? sim. Mas né? A pessoa que supõe o que seja uma causa/evento inteiros apenas depois de ler/ouvir o NOME precisa de um pouco mais de cuidado e pesquisa. Talvez você pense que poderíamos ter um departamento de marketing pra definir esses pormenores ou que deveríamos contratar uma agência de publicidade pra uma campanha de efeito, mas cara, feminismo é um movimento plural, diverso, e não me entenda mal, é que NÃO DÁ PRA REUNIR TODAS AS FEMINISTAS DO UNIVERSO E VOTAR EM ASSEMBLEIA PRA UM NOME ”que venda”, como você disse. E sobre a marcha das vadias, você mesmo explicou no vídeo o motivo do início da marcha e é só refletir um pouco mais: o feminismo também busca que termos como ”vadia, piranha (que você usou no vídeo, né? eu vi), vagabunda etc sejam desconstruídos porque eles são usados, de um modo geral, pra limitar a sexualidade da mulher e nós queremos naturalizar essa sexualidade, por isso, usar ”vadias” no nome é importante, além de simbólico, porque ali nos tornamos donas dessas palavras e as usamos sem o objetivo da ofensa…

– ”o feminismo não é uma causa de lésbicas com cara de caminhoneira”: ai, ai… assim, o feminismo é uma causa PARA A MULHER. Não existe uma ”cara”, um ”símbolo” físico sobre como feministas são ou parecem ser. São mulheres, todas, sendo cis, trans, negras, brancas, orientais, ocidentais, altas, baixas, magras, gordas, lésbicas, bissexuais, héteros, assexuadas, monogâmicas, poligâmicas etc… O feminismo é sobre MULHERES. Ok? Ok. ponto.

– ”eu queria ver um protesto feminista contra o serviço militar obrigatório dos homens”: cauê, leia com atenção o que a tia myka vai escrever aqui, ó —–> o feminismo também busca que o serviço militar seja voluntário e que aceite mulheres. Olha só, nós temos coisas demais pra resolver e muitos direitos pra conquistar e estamos buscando a igualdade. Sim, buscamos a igualdade através da luta pelas mulheres já que somos… é… mulheres. Vocês homens tão de saco cheio do serviço militar obrigatório? Se reúnam, montem debates sobre isso, façam protestos virtuais ou presenciais… enfim, LUTEM PELOS HOMENS porque, atenção: VOCÊS SÃO OS HOMENS. Eu luto pela igualdade e isso não quer dizer que eu tenha que me organizar com minhas companheiras pra lutar por vocês. Eu posso apoiar a causa (assim como você pode apoiar o feminismo sem se tornar o protagonista da causa) e tal, mas não posso tomar a frente de um interesse de vocês, né? A luta pela igualdade deve vir acompanhada de bom senso. Nesse trecho você cometeu o famoso ”IUZOMI?”, muito comum quando vemos homens falando sobre pautas feministas.

– sobre guarda de filhos e pensão: vou usar aqui o que a feminista cansada escreveu ”A pensão alimentícia não é exclusivamente masculina, ela é calculada de acordo com as condições financeiras do casal, e fornecida sempre pra quem fica responsável pelas despesas dos filhos. Por acaso esta pessoa costuma ser uma mulher, mas não é uma regra.” É isso. Não é regra que filhos fiquem com as mães na hora da decisão da guarda. Na maioria dos casos isso acontece porque ainda existe a ideia de que ”mulher é a responsável pela educação dos filhos e que vai saber cuidar melhor” e que só existe porque, desde que são crianças, mulheres são ”moldadas” socialmente para a maternidade enquanto meninos são incentivados ao raciocínio lógico e trabalho (com brinquedos, filmes etc).

Bom, espero que depois de ler isso tudo (se é que esse texto vai chegar até você) sua ideia sobre feminismo tenha sido ampliada e que seus fãs também pensem sobre isso.
Atenciosamente,

Myka Poulain.

ps.: não chama mais nenhuma mulher de piranhuda, tá? ok? tranquilo?

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