e o seu emprego, faz isso?

A mulher no mercado de trabalho é um tema com milhões de itens para se explorar (salários menores, problemas em entrevistas com perguntas constrangedoras e preconceito de gênero, cor, peso etc). Entre essas questões, tenho visto muitas mulheres próximas reclamando de basicamente a mesma coisa: o que se exige de uma mulher já contratada. Trabalhei em algumas empresas antes de começar a lecionar e também tinha a mesma reclamação, que inclui o tamanho da saia, o quanto a calça é justa, o decote profundo, a maquiagem forte ou fraca, a relação interpessoal com os colegas… Tudo o que uma mulher faz em seu ambiente de trabalho é vigiado.

Certa vez, fui ao trabalho com meia calça ultragrossa preta e um shorts. Largo. Fui chamada e informada que ”o chefe não gostou… é curto e os meninos podem se distrair olhando pra você e vão trabalhar errado.” A represália não foi direcionada a quem estava olhando pras pernas da colega ao invés de trabalhar. Decotes distraem os colegas. Saias distraem os colegas. Quando um homem é repreendido no trabalho por vestir uma bermuda, a justificativa não é ”suas belíssimas pernas vão distrair as colegas.” A desculpa que se usa é A ROUPA ADEQUADA AO AMBIENTE, mas afinal, o que é adequado e isso realmente faz sentido? Faz sentido ter que estar maquiada impecavelmente para a tela do computador, ou em outra empresa, faz sentido ser repreendida por usar alguma maquiagem? A imagem que as empresas buscam das mulheres é de prestadoras de serviços ou garotas-propaganda, ”a cara da empresa”, alguns dirão, ”é preciso que se represente na roupa e beleza o que a empresa quer passar.”

Obviamente, os diversos tipos de profissões exigem, cada um, determinadas coisas, mas sabemos que de um modo geral mulheres são muito mais cobradas já que existe esse consenso absurdo de que estamos no mundo como vaso: devemos estar impecáveis, limpas, lisas, inteiras, embelezando o ambiente. Em lojas de roupas, por exemplo, já nos anúncios para a vaga anunciam que a mulher, para ser contratada, deve ser magra, de determinada altura, com maquiagem, cabelos sempre como nas capas de revista. Em empresas formais, o famoso ”terninho” com camisa e salto e a exigência subliminar para se vestir com roupas que lembram as culturalmente impostas aos homens… ”Se vista como um homem de sucesso para ser um pouquinho mais aceita, mas coloque salto pra que nossos clientes não pensem que você não é feminina.” A feminilidade é barganhada de acordo com os interesses do empregador, nunca a escolha pessoal da empregada é levada em consideração. Assim como as trabalhadoras domésticas, muitas vezes obrigadas ao uniforme… ”o quê as vizinhas vão pensar se você não estiver vestida deixando bem claro o seu lugar? Como vou receber visitas se você estiver vestindo o que você mesma escolheu pra colocar no seu próprio corpo?”

A exigência de determinadas roupas no trabalho já é absurda por si só, independente do gênero, mas para mulheres a cobrança não é só sobre as roupas, mas também sobre a boca, os olhos, o cabelo, as unhas… Já conheci mulheres que durante um processo de assédio sexual foram culpadas pela justiça, pela sociedade, pela família por ”provocarem” o patrão com roupas justas. Até ali a culpa é colocada na vítima. Somos julgadas e manipuladas do momento em que entramos para a entrevista de emprego até o momento em que assinamos nossa saída. Somos abusadas pelo capitalismo que além da exploração geral, ainda nos toma por peças publicitárias de onde trabalhamos, nos forçando a ”ser a cara da empresa, sendo feminina e sexy sem ser vulgar” além de se sentir dono do nosso corpo só por nos pagar um salário (na maioria das vezes,  incompatível com o que o colega homem no mesmo cargo recebe). E não podendo engravidar quando decidimos por medo da demissão ou sofrendo ameaças de demissão quando é preciso buscar o filho doente na escola. Não podendo ter afinidade com um dos colegas homens: ”você quer que o setor todo ache que vocês estão saindo?” ou não podendo se relacionar com qualquer outra pessoa da empresa de forma íntima, como se a escolha não precisasse ser só nossa. Tudo em nós, mulheres, é ameaçador para o capitalismo. Chegou a hora de não sermos mais ameaçadoras. Chegou a hora de sermos o perigo real.