feminismo diagonal: o início e o não fim

Há algumas semanas atrás eu e algumas amigas feministas estávamos conversando sobre como não nos identificamos totalmente com nenhuma corrente do feminismo, embora tenhamos opiniões que se cruzam com partes de algumas (naturalmente, já que convivemos diariamente com companheiras de diferentes vertentes e aprendemos o tempo todo com todas elas). Dessa conversa nasceu um grupo no facebook chamado FEMINISMO DIAGONAL. Ok. Inicialmente o grupo surgiu pra que elas, eu, amigas e amigos nossos, conhecidos entre si ou não, pudéssemos debater essas ideias entre nós. Depois de poucos dias, amigos e amigas foram adicionando mais amigos e amigas de todos os tipos de cor, religião,  gênero, idades, visões políticas etc. Muita gente estava ali então regras foram criadas pra boa convivência do grupo, e essas regras foram baseadas nessas ideias que nós temos sobre feminismo, afinal, é um grupo fechado e como todos os outros grupos fechados, tem regras própria. Não se pode agradar todas as pessoas, então do mesmo modo que saí de muitos grupos por não me sentir segura neles, entendo quem não quis ou não quer ficar no grupo diagonal por não se sentir bem. Ninguém precisa concordar comigo, com o grupo ou com qualquer coisa no mundo. E inclusive está escrito em letras garrafais na descrição o objetivo do grupo e que auto-preservação importante. Eu não me sinto segura em muitos espaços feministas e me auto preservo deles sem precisar unir pessoas para caçoar de quem está no grupo ou concorda com ele.

Depois de observar todos os debates e conversas que diariamente ocorrem no grupo, decidi que meu TCC seria sobre isso, com problematização de coisas que discordo nas correntes e posteriormente, no mestrado, a apresentação de propostas alternativas para a militância. Vejam bem, eu me considero uma mulher feminista e militante. Como TODAS as mulheres, eu TENHO o direito a escrever um trabalho sobre minha vivência no feminismo. Como TODAS as mulheres, eu tenho o DIREITO de ter minhas ideias e não me concordar com outras ideias. Vocês também têm o direito de não concordar com as minhas, só não podem se unir pra fazer chacota e me tratar com desprezo e deboche por eu propor algo. Em que mundo é considerável que pessoas de uma causa hostilizem outras que se dispõem a fazer algo? Em que lugar de uma causa social as próprias militantes julguem, apontem, fofoquem e mintam sobre uma companheira de causa que criou um grupo no facebook e escolheu um tema pro TCC com base em ideias próprias? Ideias essas que SIM, JÁ FORAM EXPOSTAS PARA ACADÊMICAS DA ÁREA QUE NÃO SÓ ABRAÇARAM A IDEIA COMO SE DISPUSERAM A PRODUZIR MATERIAL COMIGO. E mesmo que eu não fosse estudante da área e mesmo que eu não estivesse planejando colocar minhas ideias no papel, eu AINDA TERIA TODO O DIREITO de pensar por mim mesma, eu ainda teria todo o direito de fazer minha militância pessoal. Mas o tema pra quem é desonesto só serve pra espalhar mentiras e fofocas. Todos os dias, recebo inbox com prints e mensagens de pessoas indignadas pela forma como estão apontando pra mim com base em mentiras e fanatismo. Todos os dias eu recebo perguntas hostis no ask.fm com tom de deboche, supondo que eu sou libfem sendo que: se eu me identificasse totalmente com feminismo liberal, estaria assumindo isso com a mesma coragem que estou aqui dizendo que não sou e que não preciso ser. Outras foram além, insinuando que não sou feminista por não ser radfem ou libfem. Como se só essas duas possibilidades existissem. Como se eu não pudesse ser minha própria possibilidade. Como se minha vivência pessoal não valesse absolutamente nada só por eu não me identificar com determinados posicionamentos, assumidos por essas pessoas que me ofendem e humilham simplesmente por não ser como elas. E são as mesmas pessoas que erguem suas placas sobre sororidade mas que só abaixam a placa e carregam no colo quem lhes convém. São as mesmas pessoas que panfletam sororidade mas que selecionam currículos de militância e só abraçam as mulheres que colocam ali o que elas querem ler, ouvir, dizer. Que tipo de sororidade é essa que cala uma mulher de forma tão arbitrária e covarde? Que tipo de sororidade é essa em que suas praticantes me atacam no Ask, mas quando retiro a opção de enviar mensagens em anônimo, somem? Que tipo de sororidade covarde, mentirosa, seletiva e interesseira é essa? Se eu não sou acolhida por pessoas que agem dessa forma, então não tenho razões pra achar que estou no caminho errado, já que não faço feminismo pra ganhar palmas e muito menos preciso de aprovação de qualquer pessoa que seja pra lutar no feminismo.

Perdi tempo demais da minha militância sofrendo por me sentir silenciada e humilhada por outras mulheres, mas decidi escrever isso aqui pra expor a situação, de modo que quem me conheça através dos boatos desonestos tenha minha versão dos fatos. Eu me recuso a ficar prostrada servindo minhas costas como degrau pra quem precisa de escada pra brigar. Eu me recuso a ceder ao incômodo de vocês, eu me recuso a ceder aos ataques. Eu não tenho medo de enfrentar todos os dias o patriarcado com a minha militância e também não tenho medo de enfrentar todos os dias pessoas desonestas, pois sei que elas estão distribuídas por todos os lugares, inclusive nas causas sociais. EU ME RECUSO A FICAR CALADA POR NÃO AGRADAR VOCÊS. Eu me recuso a sufocar minhas ideias pessoais por não ter a aprovação de pessoas mesquinhas. Eu me recuso a ignorar as muitas mensagens que recebo de pessoas me agradecendo por ter apresentado o feminismo à elas, por ter tentado ajudá-las e acolhê-las, e tenho muito orgulho disso. Eu me recuso a parar de lutar por essas pessoas e pelas que ainda vão conhecer o feminismo através do meu trabalho e do trabalho de quem está lutando pra conseguir direitos e dignidade, ao invés de estar perdendo tempo e energia atacando pessoas por pura vontade de se alimentar de brigas e precisar disso pra se sentir importante. Eu me recuso a não ajudar qualquer uma de vocês que me atacam hoje, como nunca me recusei e nunca o farei pois a minha sororidade não é seletiva e eu luto também por vocês.

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vamos supor

A ideia é inundar o facebook com suposições. vamos supor que elas fazem o que consideramos errado mesmo sem ter certeza. vamos supor que elas não estão do mesmo lado que o nosso por não concordar conosco. vamos supor que elas façam o que a gente mais despreza em outras mulheres. vamos supor que elas não merecem nosso companheirismo, que não merecem nossa atenção para conhecer o que elas fazem sem suposições. vamos supor que elas são nossas inimigas por discordarem de nós. vamos supor tudo sobre elas e acreditar só nas suposições dos outros. vamos supor que as colegas não estão propondo novas coisas por necessidade pessoal, pra buscar viver com dignidade em um mundo com humilhações de sobra. vamos supor que as colegas só querem holofote. vamos supor que o ativismo das colegas não prestam, mesmo sem considerar o que é importante pra elas. a ideia é inundar o facebook com risos, chacotas e ataques. vamos rir e apontar o dedo e espalhar inverdades contra aquelas que julgamos erradas, com base em suposições. vamos criticar a iniciativa das colegas sem conhecer as propostas. vamos criticar pessoas mas fingir que criticamos ideias. vamos humilhar as colegas por uma suposição. vamos humilhar as colegas sem considerar descobrir se as suposições são verdades. vamos chamar as colegas por rótulos e nomes de posições políticas sem ter certeza. vamos ouvir as pessoas que sequer as conhecem, falando sobre elas. vamos acreditar em tudo o que nos convém. vamos ignorar outros pensamentos, outras ideias, outras vontades. vamos ignorar outras vivências, vamos rechaçar as que não fecham com a gente. vamos gargalhar sobre elas enquanto espalhamos mais suposições. vamos conversar sobre elas e desconsiderar qualquer colocação contrária ao que fazemos. vamos tomar nossa água no ápice do calor enquanto digitamos risos virtuais. vamos dormir tranquilas enquanto as colegas passam a noite acordadas e mudas, silenciadas e exaustas. a ideia é inundar o facebook com nosso próprio mundinho, com nossos olhos vendados, com vendas que são filtros, com nossos olhares de aprovação programados. vamos inundar o facebook. vamos afogar outras mulheres. aquelas, que por motivos particulares, não se enquadram na nossa time-line. vamos supor, rir, inundar, afogar.

sistema patriarcal: produção de opressores

– quero deixar claro que minhas considerações abaixo NÃO ISENTAM A CULPA DE AGRESSORES ou RELATIVIZAM o sofrimento da mulher na sociedade (antiga e atual). É um texto que propõe reflexões sobre a estrutura patriarcal a partir da infância e adolescência. ponto.

Há alguns meses, após um debate sobre a campanha Chega de Fiu-Fiu, (do site Think Olga), um aluno adolescente veio me falar que se não fosse por esse debate, ele ia continuar achando que mulheres que usam roupas curtas/decotadas estão buscando elogios na rua e que por isso cantadas são justificadas. Ele me disse iria respeitar todas as mulheres independente do que elas estiverem vestindo e me agradeceu por ter mostrado isso a ele. Por esses dias estive pensando sobre muitas coisas que li e ouvi dentro da causa, e sobre coisas que sempre li mas nunca tinham me despertado alguma reflexão: a culpa dos garotos na estrutura do machismo. Sabemos que mulheres não podem ser culpadas por seu próprio machismo, já que a sociedade as ensinou assim, mas penso também em como essa mesma sociedade educa os homens (estou expondo de forma binária por ser parte dessa estrutura que questiono tal definição, o que não quer dizer que eu defenda apenas dois gêneros).

Por vezes já li declarações que confundem apontar privilégios com culpar os homens pela educação que tiveram. Embora as determinações para homens e mulheres sejam socialmente diferentes, todas elas são parte de uma mesma linha de ensinamento, que nos é comum desde a infância e que quase sempre se perpetua na adolescência: meninas fazem isso e meninos, aquilo. Meninas não podem isso e meninos, aquilo. Se não podemos culpar mulheres que foram educadas para o patriarcado, devemos culpar os homens que foram educados pelo mesmo sistema? Claro, sabemos que muitos homens têm a oportunidade de aprender sobre o feminismo e que o fazem de maneira relapsa ou se recusam a fazê-lo por medo, e também sabemos que muitas mulheres têm receio de um contato mais próximo com o feminismo, e por isso o didatismo é importante. O machismo faz com que homens se sintam a parte dominante socialmente e óbvio que irão reproduzir essa dominação da forma como lhes fora ensinada. Mulheres reproduzem o machismo ensinado aos filhos, e veja bem, não é culpa delas. Não é culpa nossa, nem de ninguém, quando nascemos o sistema já bombardeava nossas mentes infantis com as regras do patriarcado. Mostrar privilégios é importante para nutrir a empatia no outro, mas acusar sem a explicação do que ocorre no sistema educacional, familiar e social é privar o outro de aprender conosco, de reconhecer os erros, de saber que erra.

Quando crianças aprendem algo como sendo parte natural da convivência, irão defender isso como se defendessem a própria vida quando adultas, mesmo que inconscientemente. Devemos culpar adultos manipulados desde a infância pelos ensinamentos da opressão? Muitos adultos, homens e mulheres, sequer sabem o que é machismo ou como ele se faz presente. Como culpar alguém que é vítima do sistema patriarcal (mulheres) ou alguém educado para ser opressor (homens)? E isso não elimina o crime, a culpa ou a misoginia. Isso não elimina a culpa pela violência, pelo estupro, pelos privilégios… Seria desonestidade afirmar que todas essas coisas são justificadas somente pela educação, mas devemos considerar que a permissão, o poder para que elas aconteçam está diretamente ligada ao que se aprende ao longo da vida sobre sociedade. Presumir que todos os homens são o mal encarnado é presumir que não existe qualquer chance de que a sociedade mude, afinal, não se nasce machista. Devemos denunciar o que achamos opressor? Certamente e isso também faz parte do didatismo, mas também é possível que muitas conquistas sejam concluídas com menos carimbos na testa de pessoas que buscam a informação com humildade ou não sabem do que estão falando, e mais divulgação e detalhamento do que se almeja conquistar. Quem de nós nunca mudou de ideia e se sentiu envergonhada por pensar daquela forma antes? Quem de nós nunca precisou de uma chance de algum outro lado para aprender o que não podíamos ver sozinhas? Quem de nós nunca precisou de pessoas ativistas e dispostas, em qualquer outra causa, a nos ensinar?

 

Moço, você não pode.

Moço,

Você não pode. Não pode chegar na nossa ciranda e organizar os cantos. Você não pode panfletar a nossa ciranda como se fosse o mensageiro dela. Você não pode dançar a nossa música. Você pode ouvi-l a. Você não pode tocar nosso tambor. Você não pode acender nossa fogueira. Você não pode trançar as nossas fitas e distribui-las como se estivesse nos fazendo um favor. Você não pode tomar o pandeiro das nossas mãos e batucar do seu modo. O ritual é nosso. A ciranda é nossa. Nós decidimos quando acender a fogueira, quando trançar e distribuir as fitas, quando tocar o pandeiro. Nós decidimos como se dança nesse ritual. É nosso e você não pode decidir partes dele. Você pode assisti-lo. Você pode buscar entendê-lo. Você pode mudar pessoalmente a partir dele. Você pode aprender.

Mas moço (feministo que tenta protagonizar o feminismo), você não pode girar a nossa ciranda.

Sobre odiar os homens

Eu recebi hoje algumas mensagens de homens me dizendo que eu odiava homens. Olha só, eu sou feminista. FEMINISTA. Não tá óbvio? Vou explicar: eu adoro homens e odeio o patriarcado. Saca a diferença? E luto contra o machismo, o patriarcado, a misoginia, o padrão de beleza que nos picota (incluindo racismo, transfobia, homofobia…). Eu luto contra a cultura que dá direitos desiguais, poderes sociais relativos, que culpa a vítima pelo estupro, que relativiza agressores. Luto a favor de direitos reprodutivos e de escolha. Eu odeio ser oprimida, odeio ver minha mãe, minha irmã, minhas amigas serem oprimidas, odeio ver mulheres cis e trans que eu nem mesmo conheço sendo oprimidas. Não odeio os homens. As feministas que eu conheço também não odeiam os homens. Nós odiamos o que eles fazem quando perpetuam o discurso machista diariamente. Odiamos quando olham apenas para o próprio umbigo privilegiado e não se permitem aprender sobre a causa feminista. Odiamos ações misóginas tidas como ‘só uma piada’.

Eu namoro um homem. Eu gosto de homens. Eu tenho amigos homens. Por que eu odiaria os homens? Eu odeio não ser reconhecida socialmente como merecedora de direitos óbvios como os homens são. Eu odeio que meu corpo esteja à mercê da sexualização decidida pelo padrão de beleza e não pelo meu conforto comigo mesma. Eu odeio ter que precisar escrever mais um texto explicando que feminista não quer acabar com os homens, mas eu escrevo. Escrevo porque já temos uma sociedade inteira como inimiga declarada e trabalhar o feminismo é também divulgá-lo. Se alguém que odeia feministas perceber que nos odeia por coisas que não somos e não fazemos, perceberá que também pode ser feminista. Algumas pessoas são feministas e nem sabem.

”mas aquela feminista escreveu que odiava homens.”

Não tome a palavra de uma ou outra pessoa como o lema de todo um movimento. A gente não tem o direito de dizer o quão feminista alguém é ou deveria ser, mas podemos afirmar com toda certeza que odiar homens não é a intenção do feminismo. Nossa intenção é que mulheres sejam consideradas humanas e logo, com direitos adequados à nossa realidade social.

”mas vocês não deixam que homens opinem no feminismo.”

Assim como brancos não opinam no movimento negro e héteros não opinam no movimento LGBTT. Eu reconheço que existam homens feministas, e que nos apoiam. Mas existe diferença entre apoiar um movimento e protagonizar. O protagonismo do feminismo É e DEVE continuar sendo das mulheres (cis e trans). Os homens podem nos apoiar e acho importante que divulguem o feminismo pra amigos, familiares… Mas opinar sobre como devemos militar ou sobre onde devemos ver machismo, não. Isso é com a gente. Isso é com as moças. Isso não quer dizer que a gente odeie homens.

Enfim, posso dizer muito lúcida que: não odeio homens. Eu odeio o patriarcado. Se você apoia o patriarcado, não vou te odiar. Vou odiar (e combater com toda minha força) sua ideia machista, seu sistema machista e seu discurso machista.