sistema patriarcal: produção de opressores

– quero deixar claro que minhas considerações abaixo NÃO ISENTAM A CULPA DE AGRESSORES ou RELATIVIZAM o sofrimento da mulher na sociedade (antiga e atual). É um texto que propõe reflexões sobre a estrutura patriarcal a partir da infância e adolescência. ponto.

Há alguns meses, após um debate sobre a campanha Chega de Fiu-Fiu, (do site Think Olga), um aluno adolescente veio me falar que se não fosse por esse debate, ele ia continuar achando que mulheres que usam roupas curtas/decotadas estão buscando elogios na rua e que por isso cantadas são justificadas. Ele me disse iria respeitar todas as mulheres independente do que elas estiverem vestindo e me agradeceu por ter mostrado isso a ele. Por esses dias estive pensando sobre muitas coisas que li e ouvi dentro da causa, e sobre coisas que sempre li mas nunca tinham me despertado alguma reflexão: a culpa dos garotos na estrutura do machismo. Sabemos que mulheres não podem ser culpadas por seu próprio machismo, já que a sociedade as ensinou assim, mas penso também em como essa mesma sociedade educa os homens (estou expondo de forma binária por ser parte dessa estrutura que questiono tal definição, o que não quer dizer que eu defenda apenas dois gêneros).

Por vezes já li declarações que confundem apontar privilégios com culpar os homens pela educação que tiveram. Embora as determinações para homens e mulheres sejam socialmente diferentes, todas elas são parte de uma mesma linha de ensinamento, que nos é comum desde a infância e que quase sempre se perpetua na adolescência: meninas fazem isso e meninos, aquilo. Meninas não podem isso e meninos, aquilo. Se não podemos culpar mulheres que foram educadas para o patriarcado, devemos culpar os homens que foram educados pelo mesmo sistema? Claro, sabemos que muitos homens têm a oportunidade de aprender sobre o feminismo e que o fazem de maneira relapsa ou se recusam a fazê-lo por medo, e também sabemos que muitas mulheres têm receio de um contato mais próximo com o feminismo, e por isso o didatismo é importante. O machismo faz com que homens se sintam a parte dominante socialmente e óbvio que irão reproduzir essa dominação da forma como lhes fora ensinada. Mulheres reproduzem o machismo ensinado aos filhos, e veja bem, não é culpa delas. Não é culpa nossa, nem de ninguém, quando nascemos o sistema já bombardeava nossas mentes infantis com as regras do patriarcado. Mostrar privilégios é importante para nutrir a empatia no outro, mas acusar sem a explicação do que ocorre no sistema educacional, familiar e social é privar o outro de aprender conosco, de reconhecer os erros, de saber que erra.

Quando crianças aprendem algo como sendo parte natural da convivência, irão defender isso como se defendessem a própria vida quando adultas, mesmo que inconscientemente. Devemos culpar adultos manipulados desde a infância pelos ensinamentos da opressão? Muitos adultos, homens e mulheres, sequer sabem o que é machismo ou como ele se faz presente. Como culpar alguém que é vítima do sistema patriarcal (mulheres) ou alguém educado para ser opressor (homens)? E isso não elimina o crime, a culpa ou a misoginia. Isso não elimina a culpa pela violência, pelo estupro, pelos privilégios… Seria desonestidade afirmar que todas essas coisas são justificadas somente pela educação, mas devemos considerar que a permissão, o poder para que elas aconteçam está diretamente ligada ao que se aprende ao longo da vida sobre sociedade. Presumir que todos os homens são o mal encarnado é presumir que não existe qualquer chance de que a sociedade mude, afinal, não se nasce machista. Devemos denunciar o que achamos opressor? Certamente e isso também faz parte do didatismo, mas também é possível que muitas conquistas sejam concluídas com menos carimbos na testa de pessoas que buscam a informação com humildade ou não sabem do que estão falando, e mais divulgação e detalhamento do que se almeja conquistar. Quem de nós nunca mudou de ideia e se sentiu envergonhada por pensar daquela forma antes? Quem de nós nunca precisou de uma chance de algum outro lado para aprender o que não podíamos ver sozinhas? Quem de nós nunca precisou de pessoas ativistas e dispostas, em qualquer outra causa, a nos ensinar?

 

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