Um programa ao vivo e um convidado machista

20 de janeiro de 2014. O programa de TV Encontro com Fátima Bernardes, exibido todas as manhãs de segunda à sexta-feira traz convidados para discutir uma matéria sobre uma mulher que sai (e gosta) sozinha. O programa é ao vivo e não há chances para cortes de falas infelizes. O médico psicanalista Francisco Daudt então inicia um discurso insuportavelmente machista, usando de sua profissão para justificar os próprios pensamentos preconceituosos (transcrição das falas retiradas daqui):

 “se você vai para um bar, está vestida para matar e senta, toma um choppinho e passa um radar em torno, as pessoas vão fazer a leitura correta, social, de que você está disponível. […] A mulher que está sozinha, por exemplo, é frequentemente uma garota de programa que está a caça de companhia. […] você está mandando um determinado sinal, ou seja, a moça é garota de programa – estará passando essa mensagem –  […] Você pode ir pra onde você quiser, desde que você pague o preço, desde que você saiba onde você está se metendo”. 

Um festival machista de palavras torturantes. Não considero a prostituição uma ofensa, mas considero julgar e padronizar a vontade das mulheres algo terrível: cada uma de nós é diferente, com gostos diferentes, com vontades e preferências diferentes. Não somos todas iguais e não podemos ser tratadas como se houvesse um padrão feminino de ”sinais”. Não há. Querem nos imputar um comportamento e nos culpar se o rejeitamos. Querem nos enfiar em caixas saídas de fábricas, e se não cabemos nelas, somos padronizadas em outras caixas, as que a sociedade se recusa a aceitar. Felizmente, a atriz Sophie Charlotte rebateu diversas vezes as palavras de Francisco Daudt, dando algum alívio pra quem assistia ao programa, indignado.

Não é a primeira vez que Daudt reproduz preconceito com um ar de superioridade: em outro dia, no mesmo programa, o médico (ao tentar justificar mães que dão tratamentos diferentes para cada filho) disse:

”Se a mãe tem uma filha gorda e outra magra, ela não pode falar pra filha magra comer menos.” Ou seja, em outras palavras, ele acabou dizendo que é aceitável que uma mãe fale pra filha gorda comer menos. Como se só comida tornasse as crianças gordas. Como se não houvesse um milhão de outras causas e outro milhão de possibilidades de se tratar uma filha gorda.

É bastante preocupante que alguém com esse tipo de discurso tenha um espaço repetidas vezes na TV, em um programa ao vivo. É preocupante pois, como médico psicanalista, Daudt passa a sensação de que sabe do que está falando, quando na verdade só está reproduzindo o que a sociedade machista, conservadora e preconceituosa quer ouvir. O perigo está justamente aí: quando se fala o que a sociedade preconceituosa quer, se cala a voz de quem sofre com isso… E principalmente: se barra o avanço.