Desabafo: escolhas e o feminismo

Esse texto foi escrito enquanto eu me espremia inteira pra conseguir dizer essas coisas. Não me sinto amparada neste minuto e espero que passe. Tenho lido nas redes sociais diversas opiniões, diferentes umas das outras, sobre feminismo e isso é bom, já que o debate e o questionamento são sempre válidos. Porém, algumas coisas me incomodam profundamente e me desamparam. Não tenho o hábito de escrever ”feminismo só para feministas” mas esse texto é um desabafo para minhas companheiras. Sim, estou angustiada.

Logo que conheci o feminismo soube que ele busca e representa a liberdade da mulher, a liberdade de escolha de TODAS as mulheres. Eu fiz escolhas: comecei a lutar com muitas outras mulheres maravilhosas que conheci na causa. Percebi que os padrões sociais, de beleza, de relacionamentos, de comportamento etc eram opressores e que eu não deveria julgar uma mulher que quer fazer parte deles porque por anos fomos condicionadas a querer isso, fomos educadas para isso. A culpa não é nossa. Percebi também, depois de muitos tombos, que poderíamos escolher por ser/estar/fazer algo nos padrões, já que  o conforto consigo mesma é o mais importante para se viver bem. A partir daí, o feminismo cresceu em mim como um bebê recém nascido e bem alimentado. Eu poderia ser o que quisesse. Eu poderia escolher ser dona de casa ou trabalhar fora. Eu poderia escolher me casar ou não, ter relações abertas e poliamoristas ou monogâmicas. Eu poderia me depilar, maquiar, andar de salto e roupa comprida ou não me depilar e só usar saia curta, sem maquiagem. Eu poderia ter filhos ou adotar 20 gatinhos que precisam de um lar. Eu poderia TUDO e minhas escolhas seriam abraçadas: você se sente melhor assim? É assim que você fica feliz em sua vida? Vá em frente, feminismo é liberdade. E de fato, fui recebida assim em muitos núcleos feministas.

Então, iniciei o processo de desconstrução dessas coisas: eu não PRECISAVA estar no padrão. Mas eu PODERIA escolher. Porém nos últimos tempos, tenho me sentido desamparada cada vez que leio de alguma companheira coisas do tipo ”monogamia é opressora, então ser monogâmico é super problemático.” Penso que ninguém É monogâmico. As pessoas ESTÃO monogâmicas porque nada impede que se entre em um outro tipo de relação a qualquer momento. Penso também que se qualquer mulher se sente confortável (consigo mesma e com o/a outro/a) em uma relação monogâmica, tendo consciência de que não precisa ser OBRIGADA a isso, não há nada de problemático. São pessoas, mulheres, adultas e fazendo escolhas sobre a própria vida. Já temos o resto do universo nos dizendo o tempo todo como ser e agir. Já temos o julgamento da religião, do governo, da família, dos amigos, do emprego… Temos julgamentos motivados pela obsessão pulando de todos os lados na nossa cara, no nosso corpo, nas nossas relações. Se eu quero emagrecer, por exemplo, se é assim que vou me sentir melhor comigo mesma, e tendo consciência de que não preciso ficar magra pra sempre, minha escolha deve ser tão respeitada quanto das mulheres que se amam como são, que lutam diariamente pelos seus corpos em diversas formas, tamanhos e cores.

TODAS AS MULHERES devem ter seu direito de escolha garantido. Principalmente nos espaços feministas. Principalmente.

Feminismo, dentro de mim, representa todas as possibilidades do mundo: nós, mulheres. Nós somos infinitamente possíveis, e por isso, dentro ou fora dos padrões, que o respeito às escolhas seja a maçaneta da imensa porta que é a igualdade.

ps.: peço desculpas se em algum momento do texto fui grosseira ou desrespeitosa com alguém. É um desabafo e escrevi afobada. Caso tenha ferido alguma pessoa, me retrato antecipadamente.