O aparelho da perfeição

Tem um aparelho milagroso na minha TV. A voz me diz que posso ficar com o corpo perfeito em até 10 semanas. Corpo perfeito… Quem disse? O moço da TV. Não sei exatamente se a máquina funciona e não sei se essa perfeição existe. O que existe é um homem na minha TV me dizendo que devo buscar a tal perfeição comprando o aparelho milagroso. Nos 30 segundos de propaganda, vejo 4 mulheres magras, brancas e altas, malhando muito no aparelho. Elas sorriem enquanto não derrubam uma gotinha de suor sequer. Penso em como não tenho aquela barriga chapada e que eles parcelam em até 12 vezes. Me sinto estranha. Por quê?

As moças de cabelos loiros e longos, corpos magros e com vários rapazes sorrindo pra elas me faziam querer aquela pasta de dente, na adolescência. Eu era muito magra e sonhava em ter seios fartos como elas. Eu fantasiava que quando pudesse, ficaria loira. Eu alisava meu cabelo desde os 8 anos. Eu queria ser 20 cm mais alta. Eu chorava. As garotas da minha sala eram altas e todo mundo dizia que mulher alta era mais bonita, mas que muito alta era desajeitada. Tinha que ser ”do tamanho perfeito.” Perfeição: desde aqueles anos 90 me tornando desconfortável. Eu sentia que tinha muitos defeitos mas que apesar disso, era magra. As revistas, com muitas fotos de moças magras me fazia ficar aliviada por ser também. Eu estava certa de que cresceria e pelo menos magra, seria. Depois da adolescência, engordei alguns quilos. Entrei em choque e me sentia horrível. Lia alguns blogs e eles me diziam que braço gordo é feio. Que estar gorda é feio. Que ter barriga saliente é feio. As pessoas diziam ”nossa, como você engordou” e eu me sentia enjoada. Algumas roupas ainda serviam, não entendia exatamente como podia estar tão gorda.

Aí eu conheci o feminismo.

Sabe aquela frase que a gente sempre ouve no rolê feminista: AME SEU CORPO? Pois bem, eu percebi que eu podia amar meu corpo. Eu notei que não havia razão (além de gastar dinheiro e ficar do jeito que o padrão quer) pra surtar pelo meu corpo não ser como aqueles das revistas. E eu amo meu corpo completamente? Não. Não amo tudo em mim justamente porque sofri por anos com mensagens e imagens me dizendo como eu deveria ser e não há nada mais difícil que se desprender de coisas impostas desde sempre. É foda. É uma merda. Me dói ser assim e saber que não deveria doer. E dói porque me fizeram crer que eu não podia me amar. E nesse exato momento, milhões de crianças e adolescentes estão olhando pra TV e desejando não ser o que são. Milhões de mulheres estão morrendo, se picotando, se modificando, não por elas mesmas, mas pelo padrão. Não julgo alguém que está no padrão de beleza (seja por genética, seja por indução). Não julgo alguém que quer estar. Culpo o sistema. Esse sim precisa ser combatido pra que possamos olhar no espelho enxergando um ser humano, uma pessoa com vontades e alegrias, com tristezas e histórias e não um enfeite. Não estamos no mundo pra decoração. Não somos paisagens. Temos nossa poesia, mas ela é fluente de quem entende que não precisamos nos encaixar.

Na minha TV, ainda escorre um padrão cruel pelos buracos dos cabos e pelo canto da tela. O aparelho da perfeição, a coleção de roupas que acha que pessoas gordas não se vestem, o xampu que promete deixar o cabelo mais liso, a pasta que vai deixar os dentes mais brancos, o absorvente que camufla minha menstruação… Na banca, ainda se vende aquela incerta perfeição, que muda de acordo com quem lucra. No meu corpo, que AINDA não amo completamente, pulsa todos os dias os passos pra aceitação. Na minha barriga saliente, gero o amor pelas minhas curvas, pela minha forma, pelo que eu sou.