Revista Glamour: o mais do mesmo que ainda é nocivo

Revistas femininas são quase sempre lotadas de fotos de mulheres no padrão de beleza, propagandas glamourosas, produtos luxuosos e dicas de sexo e comportamento absurdas. Ontem, recebi em casa a edição de setembro da Revista Glamour e não me surpreendi com o conteúdo, apesar de ainda estar incomodada. Separei alguns trechos de duas matérias (não vou mencionar quem escreveu cada uma, mas sim criticar os pontos separadamente). Segura na minha mão, gente, que o negócio não tá fácil…

1. Em uma matéria sobre postura ao andar (até aí, ok. Dicas de saúde são bacanas e a coluna pode sofrer com má postura etc) a revista sugere que a mulher ”olhar para o horizonte, mantendo o queixo paralelo ao chão […] funciona como um lifting de pescoço, diminuindo qualquer papada.” Nem preciso dizer o quanto isso colabora pra que mulheres tenham mais um motivo pra preocupação com o corpo, né? Cada uma tem o direito de gostar ou não do que tem no corpo, mas é preocupante que revistas destinadas ao público feminino sigam plantando essas neuras em todas as edições.

Em outro trecho, a revista avisa que ”a não ser que você seja a Gisele Bündchen ou esteja em um clipe da Anitta, rebolar não é legal.” SÉRIO? Assim, a gente rebola quando a gente quiser. A gente anda rebolando se a gente quiser e se liguem na contradição: outro tópico indica que andemos sobre ”uma linha imaginária […] É assim que que as tops andam na passarela.” Quer dizer: não pode rebolar como Gisele, mas pode andar como top model?

2. Ah, os ”guias” infalíveis das revistas femininas… Neste, são mostradas ‘curiosidades’ sobre os homens, entre elas, ”6 coisas que ele adoraria ouvir na cama” como se todos os homens fossem iguais ou ”5 coisas que ele nota em você num piscar de olhos” indicando que o ”para agradar um homem, basta jeans justinho e camiseta.” ALÔ VONTADE PRÓPRIA! PRA QUÊ VOU ME VESTIR PRA AGRADAR UM HOMEM, GENTE? E não para por aí: o item 5 reprova a mulher ”sentar de perna aberta e disparar gírias” que segundo a Glamour, são ”CTT (corta tesão total).” Sabe o que corta tesão, revista? Isso mesmo: cagação de regra sobre o jeito como eu me sento ou sobre a caralhada de palavrões e gírias que eu falo.

Na página seguinte, ainda na mesma matéria, um homem ‘especialista em relacionamentos’ é convidado para escrever sobre ”3 manias femininas que eles amam.” O moço escreve que homens gostam de falar do sexo oposto, de odiar os pegadores e de andar em bando, mas não demonstra que sejam características do ser humano social e no título já fica claro que são ”manias femininas.” como se apesar de fazerem o mesmo, fosse da natureza da mulher. O velho estigma sobre o que é feminino e como mulheres são.

Como disse anteriormente, não me surpreendi. Sei que esse conteúdo é figurinha carimbada em revistas desse seguimento, infelizmente. Apesar disso, meu incômodo também é o incômodo de milhares de mulheres que todos os dias percebem o quanto isso prejudica outras milhares de mulheres que acreditam nessas revistas, que se inspiram através delas e que desejam ser como elas pregam. Espero que um dia eu possa abrir uma dessas revistas e encontrar mais do que regras sem nexo e estereótipos negativos. Espero que um dia essas revistas parem de funcionar como guias perfeitos e se tornem somente um aglomerado de papel com informações sensatas.

Medida Certa e a liberdade

Ontem, domingo, o Fantástico exibiu a nova temporada de seu quadro Medida Certa (o nome já é bastante preocupante), onde famosos são convidados (e pagos) para perderem peso. No elenco, as cantoras Gaby Amarantos, Preta Gil e o ator Fábio Porchat farão exercícios, dietas, tudo acompanhado pela câmera do programa.

Gaby e Preta são conhecidas por sua música e mensagem positiva sobre aceitação do próprio corpo. São símbolos de que o padrão de beleza imposto pode ser derrubado (e sim, elas são lindas). Entretanto, as redes sociais entraram em colapso: duas mulheres, fora do padrão de beleza e símbolos da aceitação do corpo, participando de um projeto de emagrecimento? Como pode? Pode. A liberdade de ser quem se é também se estende ao querer emagrecer. Poderia ser pelo dinheiro? Sim. Poderia ser pela saúde? (mesmo sabendo que saúde é bem relativa e que nem todo gordo vai mal de saúde, assim como nem todo magro vai bem). Sim. Poderia ser porque querem emagrecer? Sim. Partindo do princípio de que cada um faz com o corpo o que preferir, não temos o direito de julgar alguém que escolhe emagrecer.

Óbvio, combatemos diariamente o padrão de beleza e sabemos o mal que ele faz. Sabemos que milhares de mulheres sofrem por conta dele e que a aceitação do próprio corpo é importante. Porém, a liberdade é uma característica forte no feminismo em que eu acredito, e defender o direito ao corpo é defender a liberdade. Li alguns comentários e textos de pessoas dizendo que a mensagem que Preta e Gaby deixaram com isso é negativa. Que muitas mulheres se inspiravam na aceitação delas e que agora soa como hipocrisia. Não. Hipocrisia é defender a liberdade da mulher e julgá-la quando decide mudar. Hipocrisia é defender o direito ao corpo e apontar o dedo quando uma mulher toma uma decisão assim. Mesmo que a escolha delas fosse unicamente para o padrão de beleza: são anos de pressão social. São décadas de mensagens e influência do padrão. Como julgar alguém que tenta se encaixar? Como julgar quem se sente intimidada pelo padrão de beleza?

Gaby e Preta tomaram uma decisão e eu, enquanto feminista, me sinto na obrigação de defendê-las. De mostrar pra quem puder ver o quanto somos livres e o quanto podemos decidir sobre nossos corpos. São mulheres com escolhas, como todas nós. Defender a liberdade de todas as mulheres é também respeitar suas vontades.

O aparelho da perfeição

Tem um aparelho milagroso na minha TV. A voz me diz que posso ficar com o corpo perfeito em até 10 semanas. Corpo perfeito… Quem disse? O moço da TV. Não sei exatamente se a máquina funciona e não sei se essa perfeição existe. O que existe é um homem na minha TV me dizendo que devo buscar a tal perfeição comprando o aparelho milagroso. Nos 30 segundos de propaganda, vejo 4 mulheres magras, brancas e altas, malhando muito no aparelho. Elas sorriem enquanto não derrubam uma gotinha de suor sequer. Penso em como não tenho aquela barriga chapada e que eles parcelam em até 12 vezes. Me sinto estranha. Por quê?

As moças de cabelos loiros e longos, corpos magros e com vários rapazes sorrindo pra elas me faziam querer aquela pasta de dente, na adolescência. Eu era muito magra e sonhava em ter seios fartos como elas. Eu fantasiava que quando pudesse, ficaria loira. Eu alisava meu cabelo desde os 8 anos. Eu queria ser 20 cm mais alta. Eu chorava. As garotas da minha sala eram altas e todo mundo dizia que mulher alta era mais bonita, mas que muito alta era desajeitada. Tinha que ser ”do tamanho perfeito.” Perfeição: desde aqueles anos 90 me tornando desconfortável. Eu sentia que tinha muitos defeitos mas que apesar disso, era magra. As revistas, com muitas fotos de moças magras me fazia ficar aliviada por ser também. Eu estava certa de que cresceria e pelo menos magra, seria. Depois da adolescência, engordei alguns quilos. Entrei em choque e me sentia horrível. Lia alguns blogs e eles me diziam que braço gordo é feio. Que estar gorda é feio. Que ter barriga saliente é feio. As pessoas diziam ”nossa, como você engordou” e eu me sentia enjoada. Algumas roupas ainda serviam, não entendia exatamente como podia estar tão gorda.

Aí eu conheci o feminismo.

Sabe aquela frase que a gente sempre ouve no rolê feminista: AME SEU CORPO? Pois bem, eu percebi que eu podia amar meu corpo. Eu notei que não havia razão (além de gastar dinheiro e ficar do jeito que o padrão quer) pra surtar pelo meu corpo não ser como aqueles das revistas. E eu amo meu corpo completamente? Não. Não amo tudo em mim justamente porque sofri por anos com mensagens e imagens me dizendo como eu deveria ser e não há nada mais difícil que se desprender de coisas impostas desde sempre. É foda. É uma merda. Me dói ser assim e saber que não deveria doer. E dói porque me fizeram crer que eu não podia me amar. E nesse exato momento, milhões de crianças e adolescentes estão olhando pra TV e desejando não ser o que são. Milhões de mulheres estão morrendo, se picotando, se modificando, não por elas mesmas, mas pelo padrão. Não julgo alguém que está no padrão de beleza (seja por genética, seja por indução). Não julgo alguém que quer estar. Culpo o sistema. Esse sim precisa ser combatido pra que possamos olhar no espelho enxergando um ser humano, uma pessoa com vontades e alegrias, com tristezas e histórias e não um enfeite. Não estamos no mundo pra decoração. Não somos paisagens. Temos nossa poesia, mas ela é fluente de quem entende que não precisamos nos encaixar.

Na minha TV, ainda escorre um padrão cruel pelos buracos dos cabos e pelo canto da tela. O aparelho da perfeição, a coleção de roupas que acha que pessoas gordas não se vestem, o xampu que promete deixar o cabelo mais liso, a pasta que vai deixar os dentes mais brancos, o absorvente que camufla minha menstruação… Na banca, ainda se vende aquela incerta perfeição, que muda de acordo com quem lucra. No meu corpo, que AINDA não amo completamente, pulsa todos os dias os passos pra aceitação. Na minha barriga saliente, gero o amor pelas minhas curvas, pela minha forma, pelo que eu sou.