romantização pessoal das causas sociais

Aos 15 anos comecei a ter aulas de Sociologia na escola e foi como se eu tivesse entrado em uma porta totalmente diferente da que imaginei. Toda aquela teoria sobre igualdade e justiça, sobre o trabalho e a huminidade: ali eu senti que poderia (e deveria) me mexer pras coisas mudarem. Li tudo que pude na época, conversei com professores e professoras da área, eu me sentia infinita… Ia dormir imaginando que um dia o mundo seria diferente. Eu ouvia Imagine e chorava, sentia aquele calor no peito, o futuro seria de luta e conquistas. Aí eu cresci. Com 18 entrei pra faculdade e ainda sentia boa parte dessa beleza de se lutar pela igualdade social. Euqueria reivindicar a paz mundial e o atraso do professor que demorou 10 minutos pra chegar na sala. Eu queria gritar por justiça e pelo salgado da cantina que veio errado. Eu fazia tudo isso acreditando que estava botando tijolinhos no grande muro que é a luta social. Eu realmente acreditava que estava mudando o mundo aos poucos e que tudo seria lindo. Aí eu fui pra rua. No meu primeiro protesto meu coração acelerava (não lembro sobre o que era. óbvio que nem eu mesma deveria saber o que fazia ali exatamente). Ao mesmo tempo que eu torcia pra tudo correr bem e também torcia pra algo fica emocionante. Eu tinha sede de aventura e claro, não era em vão, eu queria mudar o mundo. Cada grupo que saía correndo me enchia os olhos, as coisas estavam melhorando, as pessoas estão unidas. Aí eu caí do 20º andar desse prédio carcomido que é o mundo: NADA É TÃO LINDO. O mundo não vai mudar em poucos anos porque eu quero. Não basta querer e achar lindo, tem que fazer mais do que sonhar.

Gritar por todas as coisas que de fato são nossos direitos é perfeitamente justo e necessário. Fazer disso um clipe musical, não. Ignorar o realismo das situações (e as formas adaptadas de lidar com elas) nos torna mais fortes ou nos engana? Quando romantizamos uma causa (ou várias) perdemos não só o foco como também o bom senso. A romantização pode interferir até mesmo em como vemos colegas não tão ”empolgados” ou apaixonados pela luta. Vejamos como exemplo a própria estrutura do amor-romântico:

o amor é lindo, tudo crê e tudo suporta. Se deve viver por amor e morrer por amor. O amor é único, se não nem foi amor. O amor é tão lindo que você só vai ter desejos carnais pela pessoa que você ama e só pode ser uma, se não não é amor, é oba-oba. Não se pode desistir do amor pois sua alma gêmea está te esperando em algum lugar. Sim, só existe uma. Quem ama quer gerar filhos com o ser amado. 

Causas sociais romantizadas não são tão diferentes: ”a igualdade merece sangue e suor independente das estratégias, devemos morrer pela causa em que lutamos. todos nós. O ativismo é maravilhoso, você jamais vai se sentir cansado, precisar tirar uns dias pra se reestruturar ou repensar os próprios ideais. Tem que correr da polícia em protesto, tem que ver poesia em tiro de borracha na cara. Dor não, medo não, só beleza. Não pode dar pra trás, não pode ficar em dúvida, tem que seguir a cartilha pois lutar é lindo, é massa, caminhando e cantando e seguindo a canção, mesmo que não tenhamos escrito canção nenhuma. Quem é ativista deve militar incessantemente. Vamos mudar o mundo todos juntos mas se uma causa vira moda ninguém vai mais te achar revolucionário, tem que ser mais rebelde que os outros, tem que impressionar. Tem que chocar e incomodar pra que as pessoas mudem.” Me pergunto se o chocar funciona como arma política ou se separado da conscientização ele se torna uma armadilha. As pessoas não lutarão conosco enquanto priorizarmos o chocar ao invés do reeducar. Os dois funcionam juntos, mas se a reeducação não for despertada durante o choque, ele se vira contra nós.

Ativistas são humanos com milhares de vivências diferentes. Com dezenas de problemas diários que não tornam ninguém mais ou menos ativista que o outro. Não somos robôs, não deveríamos agir como robôs programados para a paixão. A paixão nos empolga, nos tira do conforto mas nos faz agir sem a menor estratégia (ainda que mínima e pessoal) e um ativismo sem estratégia funciona? O choque que devemos causar nas pessoas carrega uma conscientização ou só uma mensagem que não instiga? Nossos cartazes prendem a atenção de quem os lê? Nossas ações despertam curiosidade e pesquisa ou só fazem com que os outros se afastem de nós sem entender nossa luta? Estamos caminhando pra mudanças efetivas enquanto agimos como uma banda de rock em turnê? Nos machucamos em protestos e nos revoltamos com isso ou contamos com orgulho no dia seguinte os cortes? Bradamos nossos cortes com louvor e não nos lembramos de usá-los de exemplo pra quem nos feriu. Nos esquecemos de mostrar cada corte e apontar cada arma, e explicar o motivo. Estamos vivendo um período de festa do ativismo: comemoramos entre nós, debatemos entre nós, convivemos entre nós. O ativismo virou par romântico da nossa vida definitivamente, (nos fazendo agir como adolescentes apaixonados por algo novo) ou ainda podemos trabalhar nele como um objetivo real, considerando as limitações, buscando adaptações e revisões?

vamos supor

A ideia é inundar o facebook com suposições. vamos supor que elas fazem o que consideramos errado mesmo sem ter certeza. vamos supor que elas não estão do mesmo lado que o nosso por não concordar conosco. vamos supor que elas façam o que a gente mais despreza em outras mulheres. vamos supor que elas não merecem nosso companheirismo, que não merecem nossa atenção para conhecer o que elas fazem sem suposições. vamos supor que elas são nossas inimigas por discordarem de nós. vamos supor tudo sobre elas e acreditar só nas suposições dos outros. vamos supor que as colegas não estão propondo novas coisas por necessidade pessoal, pra buscar viver com dignidade em um mundo com humilhações de sobra. vamos supor que as colegas só querem holofote. vamos supor que o ativismo das colegas não prestam, mesmo sem considerar o que é importante pra elas. a ideia é inundar o facebook com risos, chacotas e ataques. vamos rir e apontar o dedo e espalhar inverdades contra aquelas que julgamos erradas, com base em suposições. vamos criticar a iniciativa das colegas sem conhecer as propostas. vamos criticar pessoas mas fingir que criticamos ideias. vamos humilhar as colegas por uma suposição. vamos humilhar as colegas sem considerar descobrir se as suposições são verdades. vamos chamar as colegas por rótulos e nomes de posições políticas sem ter certeza. vamos ouvir as pessoas que sequer as conhecem, falando sobre elas. vamos acreditar em tudo o que nos convém. vamos ignorar outros pensamentos, outras ideias, outras vontades. vamos ignorar outras vivências, vamos rechaçar as que não fecham com a gente. vamos gargalhar sobre elas enquanto espalhamos mais suposições. vamos conversar sobre elas e desconsiderar qualquer colocação contrária ao que fazemos. vamos tomar nossa água no ápice do calor enquanto digitamos risos virtuais. vamos dormir tranquilas enquanto as colegas passam a noite acordadas e mudas, silenciadas e exaustas. a ideia é inundar o facebook com nosso próprio mundinho, com nossos olhos vendados, com vendas que são filtros, com nossos olhares de aprovação programados. vamos inundar o facebook. vamos afogar outras mulheres. aquelas, que por motivos particulares, não se enquadram na nossa time-line. vamos supor, rir, inundar, afogar.