feminismo diagonal: o início e o não fim

Há algumas semanas atrás eu e algumas amigas feministas estávamos conversando sobre como não nos identificamos totalmente com nenhuma corrente do feminismo, embora tenhamos opiniões que se cruzam com partes de algumas (naturalmente, já que convivemos diariamente com companheiras de diferentes vertentes e aprendemos o tempo todo com todas elas). Dessa conversa nasceu um grupo no facebook chamado FEMINISMO DIAGONAL. Ok. Inicialmente o grupo surgiu pra que elas, eu, amigas e amigos nossos, conhecidos entre si ou não, pudéssemos debater essas ideias entre nós. Depois de poucos dias, amigos e amigas foram adicionando mais amigos e amigas de todos os tipos de cor, religião,  gênero, idades, visões políticas etc. Muita gente estava ali então regras foram criadas pra boa convivência do grupo, e essas regras foram baseadas nessas ideias que nós temos sobre feminismo, afinal, é um grupo fechado e como todos os outros grupos fechados, tem regras própria. Não se pode agradar todas as pessoas, então do mesmo modo que saí de muitos grupos por não me sentir segura neles, entendo quem não quis ou não quer ficar no grupo diagonal por não se sentir bem. Ninguém precisa concordar comigo, com o grupo ou com qualquer coisa no mundo. E inclusive está escrito em letras garrafais na descrição o objetivo do grupo e que auto-preservação importante. Eu não me sinto segura em muitos espaços feministas e me auto preservo deles sem precisar unir pessoas para caçoar de quem está no grupo ou concorda com ele.

Depois de observar todos os debates e conversas que diariamente ocorrem no grupo, decidi que meu TCC seria sobre isso, com problematização de coisas que discordo nas correntes e posteriormente, no mestrado, a apresentação de propostas alternativas para a militância. Vejam bem, eu me considero uma mulher feminista e militante. Como TODAS as mulheres, eu TENHO o direito a escrever um trabalho sobre minha vivência no feminismo. Como TODAS as mulheres, eu tenho o DIREITO de ter minhas ideias e não me concordar com outras ideias. Vocês também têm o direito de não concordar com as minhas, só não podem se unir pra fazer chacota e me tratar com desprezo e deboche por eu propor algo. Em que mundo é considerável que pessoas de uma causa hostilizem outras que se dispõem a fazer algo? Em que lugar de uma causa social as próprias militantes julguem, apontem, fofoquem e mintam sobre uma companheira de causa que criou um grupo no facebook e escolheu um tema pro TCC com base em ideias próprias? Ideias essas que SIM, JÁ FORAM EXPOSTAS PARA ACADÊMICAS DA ÁREA QUE NÃO SÓ ABRAÇARAM A IDEIA COMO SE DISPUSERAM A PRODUZIR MATERIAL COMIGO. E mesmo que eu não fosse estudante da área e mesmo que eu não estivesse planejando colocar minhas ideias no papel, eu AINDA TERIA TODO O DIREITO de pensar por mim mesma, eu ainda teria todo o direito de fazer minha militância pessoal. Mas o tema pra quem é desonesto só serve pra espalhar mentiras e fofocas. Todos os dias, recebo inbox com prints e mensagens de pessoas indignadas pela forma como estão apontando pra mim com base em mentiras e fanatismo. Todos os dias eu recebo perguntas hostis no ask.fm com tom de deboche, supondo que eu sou libfem sendo que: se eu me identificasse totalmente com feminismo liberal, estaria assumindo isso com a mesma coragem que estou aqui dizendo que não sou e que não preciso ser. Outras foram além, insinuando que não sou feminista por não ser radfem ou libfem. Como se só essas duas possibilidades existissem. Como se eu não pudesse ser minha própria possibilidade. Como se minha vivência pessoal não valesse absolutamente nada só por eu não me identificar com determinados posicionamentos, assumidos por essas pessoas que me ofendem e humilham simplesmente por não ser como elas. E são as mesmas pessoas que erguem suas placas sobre sororidade mas que só abaixam a placa e carregam no colo quem lhes convém. São as mesmas pessoas que panfletam sororidade mas que selecionam currículos de militância e só abraçam as mulheres que colocam ali o que elas querem ler, ouvir, dizer. Que tipo de sororidade é essa que cala uma mulher de forma tão arbitrária e covarde? Que tipo de sororidade é essa em que suas praticantes me atacam no Ask, mas quando retiro a opção de enviar mensagens em anônimo, somem? Que tipo de sororidade covarde, mentirosa, seletiva e interesseira é essa? Se eu não sou acolhida por pessoas que agem dessa forma, então não tenho razões pra achar que estou no caminho errado, já que não faço feminismo pra ganhar palmas e muito menos preciso de aprovação de qualquer pessoa que seja pra lutar no feminismo.

Perdi tempo demais da minha militância sofrendo por me sentir silenciada e humilhada por outras mulheres, mas decidi escrever isso aqui pra expor a situação, de modo que quem me conheça através dos boatos desonestos tenha minha versão dos fatos. Eu me recuso a ficar prostrada servindo minhas costas como degrau pra quem precisa de escada pra brigar. Eu me recuso a ceder ao incômodo de vocês, eu me recuso a ceder aos ataques. Eu não tenho medo de enfrentar todos os dias o patriarcado com a minha militância e também não tenho medo de enfrentar todos os dias pessoas desonestas, pois sei que elas estão distribuídas por todos os lugares, inclusive nas causas sociais. EU ME RECUSO A FICAR CALADA POR NÃO AGRADAR VOCÊS. Eu me recuso a sufocar minhas ideias pessoais por não ter a aprovação de pessoas mesquinhas. Eu me recuso a ignorar as muitas mensagens que recebo de pessoas me agradecendo por ter apresentado o feminismo à elas, por ter tentado ajudá-las e acolhê-las, e tenho muito orgulho disso. Eu me recuso a parar de lutar por essas pessoas e pelas que ainda vão conhecer o feminismo através do meu trabalho e do trabalho de quem está lutando pra conseguir direitos e dignidade, ao invés de estar perdendo tempo e energia atacando pessoas por pura vontade de se alimentar de brigas e precisar disso pra se sentir importante. Eu me recuso a não ajudar qualquer uma de vocês que me atacam hoje, como nunca me recusei e nunca o farei pois a minha sororidade não é seletiva e eu luto também por vocês.

FEMINAZI: o outro lado do termo

Eu sempre achei o termo ”feminazi” incoerente e ofensivo. Nunca escrevi sobre por não me sentir à vontade pra enfrentar um batalhão de pessoas dizendo que o termo foi tomado e seu significado modificado. Continuo achando o termo desrespeitoso com vítimas do nazismo, e comentei no facebook que gostaria de ler um dia a opinião de alguma feminista judia/com família judia a respeito disso.

A maravilhosa  Amanda Szajnbok, com família fugida da Polônia, respondeu com um relato cortante e que nos alerta sobre o termo, muito utilizado dentro e fora da militância:

 

”O termo foi cunhado por aquele radialista republicano, Rush Limbaugh. Que (além de ser, obviamente, anti-mulher (e sobre ele não é “sexista”, é anti-mulher mesmo)) é antissemita. Só fica isso declarado porque parte de um misógino antissemita uma das coisas mais ofensivas que você pode chamar uma feminista (judia, especialmente).
Um pouco de contexto. Sem me alongar nos rolos da história da minha família, vou falar só o básico, pra explicar como isso me afeta pessoalmente. Minha família veio da Polônia. Meu bisavô tinha casado com minha bisavó em segundo casamento (a esposa anterior morreu no parto da primeira filha). Eles tinham, então, essa menina do casamento anterior e uma recém-nascida. Minha bisavó já estava grávida de outro bebê (o primeiro hominho). Foi nessa situação que ela percebeu que a coisa ia ficar feia na Polônia pros judeus e meu bisavô ficava de “deixa disso, vai dar nada” e eles foram ficando por lá. Num certo ponto, ela disse que já tinha dado tempo demais e que eles iam fugir e pronto – ele querendo ou não. Naquela altura, a coisa já não estava linda pros judeus na Polônia, então eles foram “clandestinos”. Minha bisavó costurou moedas de ouro na barra da saia pra poder levar algum dinheiro e precisou pular muro, se esconder, fazer uma viagem longuíssima de navio (estando grávida, diga-se de passagem). Só que a menina recém-nascida não tinha como ser levada junto, era impossível. Ela ficou pra trás. Deixaram a bebê com uma irmã da minha bisavó e eles acabaram morrendo em gueto (nunca foram pra campo de concentração, pelo que consta o registro, mas é difícil de saber porque os registros se perderam/eram precários, mas tudo indica que foi no gueto de Varsóvia) (pelo amor de deus, eu espero que não tenham ficado em Auschwitz – ou qualquer outro campo – e pode parecer frescura, mas me dá vontade de chorar de escrever isso, sério). Chegaram ao Brasil sem falar uma palavra de português e precisaram se reinventar.
Já deu pra entender, então, como esse termo me afeta num nível pessoal. Minha bisavó foi do caralho. Minha bisavó precisou fugir dos nazistas na marra, sacrificando tanta coisa e se colocando em risco. Ela foi feminista. E quando eu ouço “feminazi”, eu sinto que ela é desrespeitada. Sinto que ela é apagada e já teve gente o suficiente no mundo e na história querendo fazer isso. Ela e tantas outras.
Mas também tem algo não ~tão~ pessoal (e foi mal aí por entrar nesse nível, porque sei que aquele pedaço não foi uma resposta tão geral de como “os judeus” se sentem, mas é muito honesto pra mim). Hitler perseguiu as feministas (ou o que tinha de equivalente na época, claro) também. As mulheres judias foram esterilizadas, enquanto aquilo foi economicamente viável, e várias experiências cruéis foram feitas justamente nas mulheres judias, negras, homossexuais, ciganas ou comunistas. Esse termo apaga essas moças também. Seria tão ofensivo quanto dizer nazijudeu. Não é a toa que ninguém usa esse termo, ele é anacrônico e violento.
Eu sei que feminazi é algo que ofende todas as mulheres e feministas, mas as judias (acho que) em especial. Ser chamada de nazista – o grupo que matou a minha família, caralho, e que me mataria hoje numa boa – é uma dupla opressão. Eu não fico ofendida porque o termo é estúpido (e é estúpido por motivos óbvios; lutar pra ser tratada como humana, não é minimamente comparável a cometer um genocídio etc). Mas a minha ofensa caminha com a noção de que estão me comparando com o que mais fez mal pro “meu povo”, pra minha família. Quando me chamam de feminazi, me comparam com o general que matou minha tia-avó que era só uma recém-nascida. Esse termo me violenta. Comparam minha bisavó com o assassino da filha dela. Esse termo violenta minha bisavó. Esse termo violenta os judeus como um todo porque apaga e violenta as suas mulheres, tantas vezes tão corajosas.
Nas primeiras vezes que eu lia esse termo, eu me sentia ofendida e agredida. A minha reação era defensiva e de raiva. Cada vez mais, eu só fico triste. De verdade.

(p.s. – eu gostaria de dizer que sou uma pessoa melhor e não me incomodo, mas é mentira. Me afeta muito)”

vamos supor

A ideia é inundar o facebook com suposições. vamos supor que elas fazem o que consideramos errado mesmo sem ter certeza. vamos supor que elas não estão do mesmo lado que o nosso por não concordar conosco. vamos supor que elas façam o que a gente mais despreza em outras mulheres. vamos supor que elas não merecem nosso companheirismo, que não merecem nossa atenção para conhecer o que elas fazem sem suposições. vamos supor que elas são nossas inimigas por discordarem de nós. vamos supor tudo sobre elas e acreditar só nas suposições dos outros. vamos supor que as colegas não estão propondo novas coisas por necessidade pessoal, pra buscar viver com dignidade em um mundo com humilhações de sobra. vamos supor que as colegas só querem holofote. vamos supor que o ativismo das colegas não prestam, mesmo sem considerar o que é importante pra elas. a ideia é inundar o facebook com risos, chacotas e ataques. vamos rir e apontar o dedo e espalhar inverdades contra aquelas que julgamos erradas, com base em suposições. vamos criticar a iniciativa das colegas sem conhecer as propostas. vamos criticar pessoas mas fingir que criticamos ideias. vamos humilhar as colegas por uma suposição. vamos humilhar as colegas sem considerar descobrir se as suposições são verdades. vamos chamar as colegas por rótulos e nomes de posições políticas sem ter certeza. vamos ouvir as pessoas que sequer as conhecem, falando sobre elas. vamos acreditar em tudo o que nos convém. vamos ignorar outros pensamentos, outras ideias, outras vontades. vamos ignorar outras vivências, vamos rechaçar as que não fecham com a gente. vamos gargalhar sobre elas enquanto espalhamos mais suposições. vamos conversar sobre elas e desconsiderar qualquer colocação contrária ao que fazemos. vamos tomar nossa água no ápice do calor enquanto digitamos risos virtuais. vamos dormir tranquilas enquanto as colegas passam a noite acordadas e mudas, silenciadas e exaustas. a ideia é inundar o facebook com nosso próprio mundinho, com nossos olhos vendados, com vendas que são filtros, com nossos olhares de aprovação programados. vamos inundar o facebook. vamos afogar outras mulheres. aquelas, que por motivos particulares, não se enquadram na nossa time-line. vamos supor, rir, inundar, afogar.

Um programa ao vivo e um convidado machista

20 de janeiro de 2014. O programa de TV Encontro com Fátima Bernardes, exibido todas as manhãs de segunda à sexta-feira traz convidados para discutir uma matéria sobre uma mulher que sai (e gosta) sozinha. O programa é ao vivo e não há chances para cortes de falas infelizes. O médico psicanalista Francisco Daudt então inicia um discurso insuportavelmente machista, usando de sua profissão para justificar os próprios pensamentos preconceituosos (transcrição das falas retiradas daqui):

 “se você vai para um bar, está vestida para matar e senta, toma um choppinho e passa um radar em torno, as pessoas vão fazer a leitura correta, social, de que você está disponível. […] A mulher que está sozinha, por exemplo, é frequentemente uma garota de programa que está a caça de companhia. […] você está mandando um determinado sinal, ou seja, a moça é garota de programa – estará passando essa mensagem –  […] Você pode ir pra onde você quiser, desde que você pague o preço, desde que você saiba onde você está se metendo”. 

Um festival machista de palavras torturantes. Não considero a prostituição uma ofensa, mas considero julgar e padronizar a vontade das mulheres algo terrível: cada uma de nós é diferente, com gostos diferentes, com vontades e preferências diferentes. Não somos todas iguais e não podemos ser tratadas como se houvesse um padrão feminino de ”sinais”. Não há. Querem nos imputar um comportamento e nos culpar se o rejeitamos. Querem nos enfiar em caixas saídas de fábricas, e se não cabemos nelas, somos padronizadas em outras caixas, as que a sociedade se recusa a aceitar. Felizmente, a atriz Sophie Charlotte rebateu diversas vezes as palavras de Francisco Daudt, dando algum alívio pra quem assistia ao programa, indignado.

Não é a primeira vez que Daudt reproduz preconceito com um ar de superioridade: em outro dia, no mesmo programa, o médico (ao tentar justificar mães que dão tratamentos diferentes para cada filho) disse:

”Se a mãe tem uma filha gorda e outra magra, ela não pode falar pra filha magra comer menos.” Ou seja, em outras palavras, ele acabou dizendo que é aceitável que uma mãe fale pra filha gorda comer menos. Como se só comida tornasse as crianças gordas. Como se não houvesse um milhão de outras causas e outro milhão de possibilidades de se tratar uma filha gorda.

É bastante preocupante que alguém com esse tipo de discurso tenha um espaço repetidas vezes na TV, em um programa ao vivo. É preocupante pois, como médico psicanalista, Daudt passa a sensação de que sabe do que está falando, quando na verdade só está reproduzindo o que a sociedade machista, conservadora e preconceituosa quer ouvir. O perigo está justamente aí: quando se fala o que a sociedade preconceituosa quer, se cala a voz de quem sofre com isso… E principalmente: se barra o avanço.

sistema patriarcal: produção de opressores

– quero deixar claro que minhas considerações abaixo NÃO ISENTAM A CULPA DE AGRESSORES ou RELATIVIZAM o sofrimento da mulher na sociedade (antiga e atual). É um texto que propõe reflexões sobre a estrutura patriarcal a partir da infância e adolescência. ponto.

Há alguns meses, após um debate sobre a campanha Chega de Fiu-Fiu, (do site Think Olga), um aluno adolescente veio me falar que se não fosse por esse debate, ele ia continuar achando que mulheres que usam roupas curtas/decotadas estão buscando elogios na rua e que por isso cantadas são justificadas. Ele me disse iria respeitar todas as mulheres independente do que elas estiverem vestindo e me agradeceu por ter mostrado isso a ele. Por esses dias estive pensando sobre muitas coisas que li e ouvi dentro da causa, e sobre coisas que sempre li mas nunca tinham me despertado alguma reflexão: a culpa dos garotos na estrutura do machismo. Sabemos que mulheres não podem ser culpadas por seu próprio machismo, já que a sociedade as ensinou assim, mas penso também em como essa mesma sociedade educa os homens (estou expondo de forma binária por ser parte dessa estrutura que questiono tal definição, o que não quer dizer que eu defenda apenas dois gêneros).

Por vezes já li declarações que confundem apontar privilégios com culpar os homens pela educação que tiveram. Embora as determinações para homens e mulheres sejam socialmente diferentes, todas elas são parte de uma mesma linha de ensinamento, que nos é comum desde a infância e que quase sempre se perpetua na adolescência: meninas fazem isso e meninos, aquilo. Meninas não podem isso e meninos, aquilo. Se não podemos culpar mulheres que foram educadas para o patriarcado, devemos culpar os homens que foram educados pelo mesmo sistema? Claro, sabemos que muitos homens têm a oportunidade de aprender sobre o feminismo e que o fazem de maneira relapsa ou se recusam a fazê-lo por medo, e também sabemos que muitas mulheres têm receio de um contato mais próximo com o feminismo, e por isso o didatismo é importante. O machismo faz com que homens se sintam a parte dominante socialmente e óbvio que irão reproduzir essa dominação da forma como lhes fora ensinada. Mulheres reproduzem o machismo ensinado aos filhos, e veja bem, não é culpa delas. Não é culpa nossa, nem de ninguém, quando nascemos o sistema já bombardeava nossas mentes infantis com as regras do patriarcado. Mostrar privilégios é importante para nutrir a empatia no outro, mas acusar sem a explicação do que ocorre no sistema educacional, familiar e social é privar o outro de aprender conosco, de reconhecer os erros, de saber que erra.

Quando crianças aprendem algo como sendo parte natural da convivência, irão defender isso como se defendessem a própria vida quando adultas, mesmo que inconscientemente. Devemos culpar adultos manipulados desde a infância pelos ensinamentos da opressão? Muitos adultos, homens e mulheres, sequer sabem o que é machismo ou como ele se faz presente. Como culpar alguém que é vítima do sistema patriarcal (mulheres) ou alguém educado para ser opressor (homens)? E isso não elimina o crime, a culpa ou a misoginia. Isso não elimina a culpa pela violência, pelo estupro, pelos privilégios… Seria desonestidade afirmar que todas essas coisas são justificadas somente pela educação, mas devemos considerar que a permissão, o poder para que elas aconteçam está diretamente ligada ao que se aprende ao longo da vida sobre sociedade. Presumir que todos os homens são o mal encarnado é presumir que não existe qualquer chance de que a sociedade mude, afinal, não se nasce machista. Devemos denunciar o que achamos opressor? Certamente e isso também faz parte do didatismo, mas também é possível que muitas conquistas sejam concluídas com menos carimbos na testa de pessoas que buscam a informação com humildade ou não sabem do que estão falando, e mais divulgação e detalhamento do que se almeja conquistar. Quem de nós nunca mudou de ideia e se sentiu envergonhada por pensar daquela forma antes? Quem de nós nunca precisou de uma chance de algum outro lado para aprender o que não podíamos ver sozinhas? Quem de nós nunca precisou de pessoas ativistas e dispostas, em qualquer outra causa, a nos ensinar?

 

mulher direita, mulher boa

ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM INSINUAÇÕES SOBRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E APESAR DE TER SIDO ESCRITO DE FORMA IRÔNICA E COM OBJETIVOS DE INCOMODAR QUEM NÃO PERCEBE A TRISTE REALIDADE VIOLENTA E MACHISTA, PODE TRAZER SENTIMENTOS OU LEMBRANÇAS RUINS. SE APÓS ESSE AVISO NÃO SE SENTIR SEGURA E CONFORTÁVEL PARA LER, NÃO LEIA ❤

E aê, tio, fazendo o quê aqui essas horas? Passando, só, fumar um cigarro, dar uma relaxada, né? É, é bom. Tá vindo de onde? Ah, da padoca do Antunes ali em cima. Rapaz, cê nem tem ideia do que aconteceu, lá… É mesmo? Pois é. Que que houve? Eu tava lá tranquilo, fui pagar minha continha e aí eu vi uma mulher. Aí sim, heim, tio, era gostosa? Menino, a mulé tava sem camisa. Hãn? Sem camisa, cas teta pra fora. Mas tio, que louca. Tinha peitinho bonito, pelo menos? Olha, sobrinho, eu encarava. E ninguém chamou a polícia, ninguém fez nada? Ficou todo mundo chocado, isso sim e ela lá, comendo pastel na maior naturalidade, como se fosse normal uma mulher mostrar o peito assim de graça pra todo mundo, uma vagabunda. Nossa tio, essas mulheres com essas ideias de feminismo, depois são estupradas e nem sabem o motivo, taí, é tudo vagabunda querendo ter o direito de ser vagabunda. Menino, ce tinha que ver a cara de quem passava, eu não chamei a polícia por falta de reação, nunca na minha vida achei que fosse me deparar com isso e olhei feio pra ela, viu, olhei feio e espero que ela tenha se tocado. Tio, eu fico pensando que agora que eu tô na faculdade tô conhecendo mais garotas, né, e tava querendo namorar alguma, dar uma sossegada por um tempo e agora que cê me contou isso eu tô é com medo de começar a namorar uma dessas, aí. É, achar mulher boa hoje é difícil, né, mulher honesta, recatada, que gosta de agradar o marido, o namorado, mulher direita, né? A tia era direita, tio? Sua tia era uma mulé boa, cozinhava bem, nunca vi aquele banheiro sujo, nunca inventou de sair com as amigas, trabalhava fora, até que eu deixava, assim ela tinha o dinheiro dela pra gastar com os embelezamentos e eu não precisava gastar com ela. Ela nunca faria isso, né, tio, sair com os peitos pra fora. Nunquinha, que mulher minha nunca teve essas liberdades. Eu era muito novo quando ela morreu, ela morreu de quê mesmo, tio? Ah, o dia que ela morreu eu tava meio nervoso, ela também não ajudou, né, sempre foi mulher respeitada, mulher direita, sempre fiz de um tudo por essa mulher mas aí ela resolveu que não queria comparecer, e aí cê sabe como é, eu sou homem, pô, eu tenho meus direitos de marido! Ela não quis transar, tio? Isso, vê se pode uma coisa dessas? Aff, tio, odeio mulher fria. Eu também, sobrinho, eu também. E aí? Aí eu insisti e ela nada, eu dei um tapa, mas coisa boba, só pra ela ver que eu sou muito macho, não fiz querendo machucar, só que ela tava da pá virada e revidou o tapa, eu tive que resolver. E resolveu, tio? Foi assim que perdemos sua tia e olha, saudade dela, mulher direita, mulher boa, mulher que nunquinha ia me denunciar se tivesse sobrevivido.

A violência doméstica não é fruto do nervosismo passageiro de alguém. Ela é fruto do MACHISMO. É uma realidade triste e crescente que PRECISA PARAR. Se você leu esse texto, espero que tenha percebido o quanto algo que é considerado pela sociedade como ”direito besta exigido por feminista desocupada” é apenas uma das faces da violência contra as mulheres. Um seio desnudo sendo criticado pode até parecer ”frescura de feminista desocupada” mas é o reflexo de outras agressões que milhares de mulheres passam todos os dias. Se informe sobre feminismo antes de concluir o que o machismo já concluiu por você. (Início do texto inspirado na Cristina Flores, que tirou uma foto incrível de topless, comendo um pastel, com um senhor sem camisa a olhando com julgamento).

o topless no RJ: medo do que não querem conhecer

Hoje aconteceu um protesto importante para as mulheres no Brasil: topless coletivo no Rio de Janeiro, cidade que recebe centenas de turistas nesse período do ano e que se chocaram com o ato. Não pelo seios, mas pela agressividade com que o ato foi recebido pelas pessoas em geral, escancarando mais uma vez o machismo e suas raízes tão fortes no país.

O evento foi marcado por agressões antes mesmo de seu acontecimento: marcado e divulgado através do facebook, a página do evento recebeu uma enxurrada de homens munidos de ataques misóginos, gordofóbicos, intimidação sexual… Em um dos debates, fui ameaçada de estupro e alguns dos agressores descobriram onde eu estudava na época. Fui chamada de todos os nomes machistas e gordofóbicos existentes (sim, eles me chamaram de gorda e derivados com a intenção de me ofender, o que não funcionou, e aí partiram pra outras tentativas de agressão). Um sintoma claro do quanto as pessoas atacam o que não conhecem, e pior, o que não QUEREM conhecer. Pessoas com medo. Medo da minha, sua, da nossa liberdade. O medo não é dos seios expostos, o medo é do controle sobre o nosso corpo saindo das mãos e mentes deles e voltando pra nossa, de onde nunca deveria ter saído. O NOSSO controle sobre NÓS mesmas. Em determinado momento, tirei print de boa parte do que houve e uma amiga também tirou. Denunciei todos os agressores ao facebook e os bloqueei. Até hoje aguardo um posicionamento do site sobre o que houve. Meu perfil é trancado e ainda assim descobriram onde estudava naquele período. E não fui agredida sozinha. Muitas mulheres ativas na página foram xingadas, humilhadas, ameaçadas… Nos ameaçavam de estupro encarando o crime como ”castigo” para quem ousa colocar os seios para fora dos sutiãs que em pleno século 21 ainda trazem ferros e técnicas para padronizar nosso corpo.

Durante o ato, muitos fotógrafos, homens, disputavam o melhor ângulo para que a matéria fosse bem sucedida. O melhor ângulo dos seios. Nunca vi alguém empurrar ou se amontoar nos colegas de profissão para fotografar um braço ou um pé de uma pessoa que não é famosa, mas ali, os seios eram o elo perdido entre o senso comum e a ousadia. Essa parte do corpo biologicamente programada para alimentar a cria foi tão sexualizada que os mamilos são condenados ao sufocamento eterno de roupas, lingeries e 4 paredes. Eu me importo que todas as pessoas ao redor achem que meus seios ofendem. Eu me importo que essas pessoas relativizem a exposição do corpo de acordo com o gênero, eu me importo por NÃO ACEITAR que a opinião delas me impeça de viver como escolhi. EU NÃO ACEITO que meus seios sejam mostrados quando VOCÊS decidirem. Eles estão comigo. Eles são parte de mim e não há ameaça, humilhação, ridicularização ou pressão moralista ridícula que irá me convencer do contrário. Não existe igreja, deus, família, marido, amigos ou anônimos com páginas fake na internet que me impedirão de VIVER.

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