depoimento não-binário: todos os lados de um ser humano

Graziela Magnani (@aocaleidoscopio no twitter) escreveu esse texto lindo e abri as portas e janelas desse blog para publicá-lo.Cada palavra, cada ponto, cada sentimento desse texto merece toda nossa atenção e empatia:

” Hoje eu me vejo como mulher. Não somente hoje, mas durante os 19 anos que vivi. Desde sempre vi a imagem de ser mulher por uma ótica inconformada. Quando era pequena, usava as roupas do meu irmão e as maquiagens da minha mãe. Brincava e corria, sujava meus vestidinhos e adorava camisetas listradas e largas. Apontavam que eu era bruta, que eu não sabia ser feminina. Não me conformei nunca com isso. Cresci e continuei no mesmo exercício, que com o passar dos anos se desenvolveu a questionar todo tipo de agressão patriarcal. “Não é justo que mulher tenha que fazer certas coisas. Não é justo que mulher tenha seus direitos cerceados. Não faz sentido mulher ser desrespeitada, muito menos ser morta por simplesmente existir.” Mas nos últimos meses provei na carne uma das maiores injustiças: a sociedade ter de dar um selo de aprovação para conceder alguém o “ser mulher”. A mulher não se define pelos genitais. Para ser mulher, não é preciso usar batom, tão menos saia. Não precisa ter buceta, não precisa ter uma voz delicada. Existem mulheres de barba, existem mulheres com pinto, existem mulheres onde nós sequer imaginamos pois vivemos numa sociedade não só patriarcal como cissexista. A maior agressão de todas é definirem nosso gênero antes mesmo de podermos pensar por nós mesmos. A maior agressão de todas é a normatização do termo “sexo biológico”. A partir do momento que você nasce, a sociedade espera que você aja de tal modo. Quem se descobre trans* no meio do processo está fadado. Fadado a sofrer múltiplas e infinitas restrições de direitos básicos, de respeito, de amor, de compreensão. Fadado ao apagamento, esquecimento, marginalização, silenciamento. Somos discriminadas, discriminados, discriminadEs por sermos quem somos. A maior guerreira é a mulher trans*. Sim, trans com asterisco. Pois mesmo dentre as identidades trans* existe um apagamento GIGANTE das identidades que fogem do binarismo de gênero, o “clássico” homem e mulher. Durante toda minha vida sofri um questionamento sobre o que eu era, nunca obtive resposta. Nossas identidades são silenciadas, nossa vivência, horrorizada. Hoje me classifico como gênero fluído, um tipo de identidade não binarista. Isso quer dizer que me vejo hora como homem, hora como mulher. Agora vocês me perguntam: o que a mulher tem a ver com pessoas trans*, inclusive as não binárias? Simples: todes nós temos nossos gêneros marginalizados, de uma forma ou outra. A mulher é marginalizada pois tratam-na como objeto, subjetiva ao homem. As pessoas trans* são marginalizadas, pois aos olhos da sociedade nós não existimos. A mulher cis sofre feminicidio para a manutenção do poder patriarcal. A mulher trans* sofre feminicidio por existir. Por ter sua identidade transformada em abominação. O mesmo com pessoas não binárias. A partir desse pensamento bem resumido, não seria necessária uma UNIDADE para combater o CIStema? Pois o patriarcado se mostra perigoso, mas tão perigoso quanto ele é o cissexismo, é o binarismo. O patriarcado subjulga as mulheres; o cissexismo agride as pessoas trans*; o binarismo é tão posto que é como se simplesmente não existíssemos. É sobre o que menos se fala dentro do movimento feminista como um todo. Fui feminista por 5 anos e só ano passado descobri sobre identidades não binárias. Eu sou homem, eu sou mulher. Eu uso maquiagem, uso roupas “masculinas”, uso vestido quando sou homem, uso bermuda e regata quando sou mulher. Uso o que eu quero quando tenho vontade, e isso não define minha identidade de gênero. O que vestimos, como aparentamos não tem nada a ver com ninguém a não ser nós mesmos. O cissexismo tem que acabar, o binarismo tem que acabar. Pessoas são invisibilizadas por isso. Quantas mulheres trans* existem no mundo, sem saber que são mulheres simplesmente pq gostam da sua barba, do seu pênis, do jeito que veste? Nossas identidades vão além da aparência. Nós somos o que nós falamos que somos, e não o que determinam que somos. E eu determino que mesmo gênero fluido, sou mulher e não saio da luta. Todo o meu amor, todo o meu apoio aos gêneros marginalizados: as mulheres cis, as mulheres trans*, homens trans*, genderqueers e etc. Juntes nós conseguiremos acabar com toda a opressão. A revolução será intersseccional, transfeminista ou não será”

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2 comentários sobre “depoimento não-binário: todos os lados de um ser humano

  1. Eu só gostaria de dizer como me identifico com esse texto.
    Desde criança eu repudiava as coisas femininas, gostava mais de coisas masculinas e sentia mais atração por mulheres.
    Eu já pensei que talvez fosse lésbica, ou trans ftm, mas nenhum dos dois me vinham naturalmente, eu não sentia a confiança que via nos olhos das pessoas que se identificavam assim. O meu lado masculino era sempre uma complementação, um papel ocasional; o meu lado feminino, também: na maior parte do tempo eu só me sentia um meio termo estranho. Como as pessoas me vinham como mulher, por assumirem que eu era cis, tinha mais sonhos e alter-egos masculinos. O meu sonho era poder ter um dimmer (aquelas luzes que não são apenas ligadas ou desligadas, mas que vão gradualmente ficando mais fracas até desligar) para meu corpo, e ligar ou desligar as características femininas do meu corpo conforme eu quisesse me apresentar.
    Quando cresci, eu percebi que não odiava ser mulher: eu odiava as coisas que me impunham por ter genital feminino e ser identificada como mulher. Descartei a ideia de trans ftm.
    Mas a vontade de ter um dimmer, nunca sumiu. Nem mesmo quando eu comecei a me adaptar a algumas convenções femininas ou quando descobri que conseguia sentir atração por homens. Virei essa confusa pessoa que gosta de todo mundo e não se encontra em gênero nenhum; me refugiei na comunidade LGBT, que não me absorveu bem.
    Me machuquei muito com homens homossexuais, que se sentiam atraídos por mim, se relacionavam comigo e depois me rechaçavam quando outros descobriam, porque queriam se afirmar como não-héteros e eu ameaçava essa afirmação com meus órgãos genitais. As meninas lésbicas, também me achavam confusa, ora de um jeito, ora de outro – quando descobriam que eu já tinha namorado homens, não me levavam a sério… uma série de decepções.
    Conheci um rapaz que é o máximo dos privilégios (hétero, cis, branco, etc, etc) e inesperadamente, me apaixonei. Mas ando me escondendo. Ele está entendendo minha “bi”ssexualidade, não tive a coragem de me expor totalmente ainda. Todos meus amigos anteriores se afastaram, dizendo que eu virei careta… meus cabelos estão longos demais, minhas roupas muito delicadas.
    Eu me perdi um pouco, eu admito. E agora minha vida está confusa.
    Eu nunca poderei ter um dimmer, mas a vontade nunca vai sumir. E agora tudo o que eu posso fazer, é desabafar aqui.
    Espero um dia viver plenamente como eu sou.

    • Não se deixe apagar, quem quer que você seja, com quem quer que esteja! Não fique rodeadx de pessoas que não te entendem, não dedique seu tempo, seu esforço e sentimentos à uma pessoa que não irá lhe aceitar do jeito que você verdadeiramente é.
      Eu te entendo em muitos aspectos. Apesar de ter nascido num corpo dito feminino, me considero um homem trans, porém não-binário. Ora me vejo homem, ora sou andrógino, ora não sou nada. Não quero um dimmer pra ligar e desligar as características femininas do meu corpo, quero que elas se apaguem totalmente. Mas queria poder controlar as características masculinas que o tratamento hormonal um dia trará.
      Atualmente tenho um parceiro que também é um homem branco cis e etc., só não é hetero. Isso me conforta porque tenho certeza que ele não me vê como mulher, respeita minha identidade de gênero e não coloca expectativas em cima disso: ele não espera que eu aja feito um machão, nem que eu seja afeminado. Bônus: ele ama androginia ❤
      Lhe desejo boa sorte com suas conquistas e relacionamentos. E por favor, viva plenamente como você é sim! Evite a companhia de pessoas cissexistas, elas não lhe trarão nada de positivo.

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