FEMINAZI: o outro lado do termo

Eu sempre achei o termo ”feminazi” incoerente e ofensivo. Nunca escrevi sobre por não me sentir à vontade pra enfrentar um batalhão de pessoas dizendo que o termo foi tomado e seu significado modificado. Continuo achando o termo desrespeitoso com vítimas do nazismo, e comentei no facebook que gostaria de ler um dia a opinião de alguma feminista judia/com família judia a respeito disso.

A maravilhosa  Amanda Szajnbok, com família fugida da Polônia, respondeu com um relato cortante e que nos alerta sobre o termo, muito utilizado dentro e fora da militância:

 

”O termo foi cunhado por aquele radialista republicano, Rush Limbaugh. Que (além de ser, obviamente, anti-mulher (e sobre ele não é “sexista”, é anti-mulher mesmo)) é antissemita. Só fica isso declarado porque parte de um misógino antissemita uma das coisas mais ofensivas que você pode chamar uma feminista (judia, especialmente).
Um pouco de contexto. Sem me alongar nos rolos da história da minha família, vou falar só o básico, pra explicar como isso me afeta pessoalmente. Minha família veio da Polônia. Meu bisavô tinha casado com minha bisavó em segundo casamento (a esposa anterior morreu no parto da primeira filha). Eles tinham, então, essa menina do casamento anterior e uma recém-nascida. Minha bisavó já estava grávida de outro bebê (o primeiro hominho). Foi nessa situação que ela percebeu que a coisa ia ficar feia na Polônia pros judeus e meu bisavô ficava de “deixa disso, vai dar nada” e eles foram ficando por lá. Num certo ponto, ela disse que já tinha dado tempo demais e que eles iam fugir e pronto – ele querendo ou não. Naquela altura, a coisa já não estava linda pros judeus na Polônia, então eles foram “clandestinos”. Minha bisavó costurou moedas de ouro na barra da saia pra poder levar algum dinheiro e precisou pular muro, se esconder, fazer uma viagem longuíssima de navio (estando grávida, diga-se de passagem). Só que a menina recém-nascida não tinha como ser levada junto, era impossível. Ela ficou pra trás. Deixaram a bebê com uma irmã da minha bisavó e eles acabaram morrendo em gueto (nunca foram pra campo de concentração, pelo que consta o registro, mas é difícil de saber porque os registros se perderam/eram precários, mas tudo indica que foi no gueto de Varsóvia) (pelo amor de deus, eu espero que não tenham ficado em Auschwitz – ou qualquer outro campo – e pode parecer frescura, mas me dá vontade de chorar de escrever isso, sério). Chegaram ao Brasil sem falar uma palavra de português e precisaram se reinventar.
Já deu pra entender, então, como esse termo me afeta num nível pessoal. Minha bisavó foi do caralho. Minha bisavó precisou fugir dos nazistas na marra, sacrificando tanta coisa e se colocando em risco. Ela foi feminista. E quando eu ouço “feminazi”, eu sinto que ela é desrespeitada. Sinto que ela é apagada e já teve gente o suficiente no mundo e na história querendo fazer isso. Ela e tantas outras.
Mas também tem algo não ~tão~ pessoal (e foi mal aí por entrar nesse nível, porque sei que aquele pedaço não foi uma resposta tão geral de como “os judeus” se sentem, mas é muito honesto pra mim). Hitler perseguiu as feministas (ou o que tinha de equivalente na época, claro) também. As mulheres judias foram esterilizadas, enquanto aquilo foi economicamente viável, e várias experiências cruéis foram feitas justamente nas mulheres judias, negras, homossexuais, ciganas ou comunistas. Esse termo apaga essas moças também. Seria tão ofensivo quanto dizer nazijudeu. Não é a toa que ninguém usa esse termo, ele é anacrônico e violento.
Eu sei que feminazi é algo que ofende todas as mulheres e feministas, mas as judias (acho que) em especial. Ser chamada de nazista – o grupo que matou a minha família, caralho, e que me mataria hoje numa boa – é uma dupla opressão. Eu não fico ofendida porque o termo é estúpido (e é estúpido por motivos óbvios; lutar pra ser tratada como humana, não é minimamente comparável a cometer um genocídio etc). Mas a minha ofensa caminha com a noção de que estão me comparando com o que mais fez mal pro “meu povo”, pra minha família. Quando me chamam de feminazi, me comparam com o general que matou minha tia-avó que era só uma recém-nascida. Esse termo me violenta. Comparam minha bisavó com o assassino da filha dela. Esse termo violenta minha bisavó. Esse termo violenta os judeus como um todo porque apaga e violenta as suas mulheres, tantas vezes tão corajosas.
Nas primeiras vezes que eu lia esse termo, eu me sentia ofendida e agredida. A minha reação era defensiva e de raiva. Cada vez mais, eu só fico triste. De verdade.

(p.s. – eu gostaria de dizer que sou uma pessoa melhor e não me incomodo, mas é mentira. Me afeta muito)”

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3 comentários sobre “FEMINAZI: o outro lado do termo

  1. Nossa, quando alguém que viveu algo explica o lado dela, o impacto é ainda maior…se eu usei esse termo 1x foi mto, pq ficava encucada com isso do nazi no meio e agora só tenho ctz q na real é SIM um termo que não deveria ser usado. (Amanda, senti um carinho mto grande de vc por sua família e achei que sua bisavó era super foda e o que ela fez foi incrível <3)

  2. Amanda, eu tenho nome judeu e quando fui em berlim, no primeiro dia eu me senti rejeitada. não sei por quê(e olha que eu sei o idioma, foi como se tudo naquele lugar me expulsasse de lá). e quando fui num campo de concentração, eu me senti horrível. senti como se tivessem me matado já. sabe?

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