Bons Costumes: 1925 ainda está aqui

O filme Bons Costumes* baseado no filme de 1928 de Alfred Hitchcock, que por sua vez foi inspirado na peça teatral de  Noël Coward (1925) retrata a mulher com uma visão bem diferente do olhar geral ao feminino da época. Larita, uma americana piloto de corrida de carros, já lidava com julgamentos sociais pela profissão que escolhera. Quando se apaixona e se casa com John Whittaker, um jovem aristocrata inglês de uma família falida, Larita é levada pelo marido para conhecê-los na Inglaterra e o conflito com a sogra começa logo na recepção do casal.

Larita não corresponde ao ideal feminino dos anos 20/30. Veste calças, dirige carros, descolore os cabelos e é alguns anos mais velha que seu marido. A sogra, Veronika, assustada, passa os dias desafiando Larita em uma tentativa ferrenha de desmanchar o casamento do filho, já que sonha em casá-lo com Sarah, a filha do vizinho rico. Em um jogo interessante, Veronika, faz de tudo para manter as aparências de uma família normal e padronizada, sem perceber que mesmo esforçada para preservar tradições, sai do estereótipo de esposa da época. No mesmo núcleo, vemos outras figuras femininas como as irmãs de John: Marion, que se ilude dia e noite sobre se casar com um rapaz que desapareceu e Hilda, apaixonada pelo filho da família vizinha. Comportamento socialmente esperado de todas as mulheres: buscar o casamento. O pai, Jim, é um veterano de guerra saturado de aparências e passa o dia lendo jornal, consertando sua motocicleta e fumando.

O filme se desenrola em uma comédia leve e inteligente. Larita se esforça para mostrar que almejar um casamento com alguém desaparecido é bobagem, que o casamento pelo casamento não é uma boa ideia, no caso de Marion, e que Hilda não precisa suplicar pela atenção do vizinho. Larita passa de nora prreservada para a que mostra sua personalidade verdadeira, como na cena em que, contra a caça de animais, desafia a sogra indo ao evento com a motocicleta de Jim enquanto todos montavam cavalos. Ela já não se importa mais em ser agradável para os padrões da sogra, e é aí que John começa a estranhar a moça. De uma forma ou de outra, ele espera que a esposa se sacrifique por ele e pela família dele. Que more com eles na Inglaterra, apesar de Larita falar constantemente que deseja voltar aos EUA e ter a própria casa. Depois de descobrirem que ela foi julgada e absolvida pela morte do primeiro marido, o clima fica bizarro. Algumas cenas depois ela explica para John que o antigo esposo sofria de câncer e que ela o amava tanto que atendeu seu pedido: envenenou-o para que morresse em paz, sem as complicações da doença.  John bate o pé como o garoto mimado que é e ignora a mulher durante a famosa festa de natal dos Whittaker. Larita então toma uma decisão firme:  devolve o anel de casamento para John e quebra a estátua que fica na porta da frente, tão adorada por Veronika. Nesse momento, notamos o quanto Larita, ainda que amando muito o marido, se coloca em primeiro lugar. Ela percebe que só sobreviveria naquele lugar se fizesse o jogo social esperado, e se recusa. Se recusa a ser o que esperam que ela seja. O sogro, Jim, aproveita a carona e foge também.

Se pensarmos que essa história foi criada em 1925, percebemos que nosso meio social não mudou muito. Ainda, infelizmente, se busca a tradição, a aparência, se espera da mulher o papel de esposa dedicada que se altera para se encaixar em um casamento. Óbvio que um casamento, em suas diversas formas possíveis (mono, poli, hétero, homo…) pode funcionar. É uma decisão pessoal. O questionamento deve ser feito a partir da pressão social para que ele aconteça. Conquistamos muitas coisas, mas apesar disso, uma mulher piloto de corrida nos dias de hoje ainda sofre preconceito. Uma mulher que se recusa a praticar o esperado dela sofre repressão em cada núcleo de sua vida, todos os dias. É vergonhoso que ainda tenhamos que debater isso. É vergonhoso que ainda precisemos, todos os dias, mostrar para o mundo que não, não iremos nos submeter para preservar qualquer conservadorismo.

*Easy Virtue, Inglaterra, 2008. Diretor: Stephan Elliott.

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