síndrome de estocolmo: a banalização na militância

Em 1973 o banco Sveriges Kreditbank of Stockholm, localizado na cidade de Estocolmo, Suécia, foi invadido por dois assaltantes que após troca de tiros com a polícia mantiveram ali 4 pessoas, durante 6 dias. Os reféns não só recusavam a ajuda do mundo exterior como também protegiam seus sequestradores. Após a libertação, um dos reféns gerou um fundo monetário para auxiliar os criminosos com as despesas judiciais. Desde então, foi adotado pelos profissionais da psicologia o termo Síndrome de Estocolmo para relações de abuso de poder onde a vítima apresenta defesa do abusador, podendo criar laços amorosos e de lealdade. É uma defesa psicológica de sobrevevivência. A vítima passa a ser grata ao agressor por permitir que ela sobreviva, é um meio da mente baixar o estresse e não se sentir em risco. Não é intencional, a vítima do abuso também é vítima da síndrome, pois está tudo interligado.

Obviamente esses casos não acontecem somente entre sequestradores e sequestrados, porém é preciso cuidado com a banalização do termo, assim como extensão para a militãncia política e de causas sociais. Mulheres em situação de violência doméstica, por exemplo, podem desesnvolver a Síndrome de Estocolmo pois é uma situação de absoluto estresse e risco em tempo real. Como se tem a consciência do perigo o inconsciente entra em ação para proteger a mente. É algo muito sério e que atinge a vida da pessoa como um todo. Sendo assim, como é possível que banalizem o termo pra endossar algum discurso? Vejamos um exemplo: a Depressão é uma doença grave e atinge muitas pessoas que viram alvos de preconceito e banalizações do tipo ”isso não é doença, é frescura” ou ”tristeza passa com trabalho, ocupe sua mente”. Se comparar Depressão com uma ”tristeza passageira” é errado e desrespeitoso, comparar qualquer outra doença com coisas banais também é. A Síndrome de Estocolmo é uma doença e não um termo para julgar e tirar a autonomia de outras mulheres. Quando alguém diz que sofrem dessa síndrome as mulheres (inclusive feministas) que se depilam, que se relacionam com homens cis (dá pra combater a heteronormatividade sem combater a colega heterossexual), que usam maquiagem, entre outras coisas, está banalizando uma doença real e reduzindo todas as mulheres ao posto de iguais na vivência, no pensamento e no sentir. Não somos iguais e uniformes, não reagimos igual. Ao invés de enviar ajuda para as que de fato sofrem com a síndrome, se usa o termo para justificar as próprias opiniões sobre o corpo e autonomia das outras mulheres.

Existe sim uma tendência de que mulheres tentem se encaixar nos padrões, somos vítimas desses padrões e é no mínimo compreensível que alguém queira se sentir parte de algo, que alguém não queira sofrer por não se encaixar e por isso culpabilizar mulheres que escolham por qualquer parte do padrão em seus próprios corpos é insensível e egoísta. Entretanto, outros motivos ”além do padrão” levam mulheres à escolhas como se depilar, namorar um homem ou usar maquiagem, cada pessoa é um livro diferente ainda que estejam na mesma biblioteca. Muitas feministas, em constante desconstrução, após algum tempo de reflexão decidem que não PRECISAM fazer diversas coisas, mas que podem, se quiserem. Usar uma doença tão grave para determinar as escolhas dessas mulheres não é só insensato para com elas, como é também para com quem tem a Síndrome de Estocolmo. Vemos isso acontecendo com quem tem Transtorno Bipolar, por exemplo. Qualquer indecisão de alguém e já disparam a falar que tal pessoa é bipolar. Usar doenças como termos de coisas que NÃO SÃO parte da doença alimenta o preconceito e é irresponsável.

A militância feminista é um trabalho árduo e demorado, leva tempo para ver retorno, leva tempo para ver mudança. Culpabilizar e julgar a vida das copanheiras não colabora no rompimento com as estruturas. Banalizar uma doença que atinge mulheres não contribui com a queda do patriarcado. Se queremos que todas as mulheres sejam livres, não devemos usar uma doença que machuca muitas delas como justificativa para o julgamento de outras. A Síndrome de Estocolmo é algo sério demais pra ser usada como alimento de rixas internas e teóricas.

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o reconhecimento do privilégio cis

Todos que estamos envolvidos em causas sociais sabemos da relação entre privilégio e opressão, porém nem todos nós sabemos que uma mesma pessoa pode ser oprimida e também ter privilégios. Eu sou mulher, faço parte da minoria que é oprimida em muitos aspectos, vivendo em uma sociedade patriarcal e machista. Ao mesmo tempo, sou branca em uma sociedade com estruturas racistas e colonizadoras. Sou oprimida por ser mulher, mas faço parte de uma maioria em direitos por ser branca, logo, eu também faço parte como opressora. Independente de discordar do racismo, de repudiar o racismo, em aspectos sociais eu tenho privilegios garantidos, os quais muitas companheiras de luta feminista, negras, não possuem. A premissa de privilégios sociais é a mesma em qualquer relação oprimido x opressor, assim como na questão do privilégio cis. Não existe uma pirâmide da opressão ou uma lista de quem é mais ou menos oprimido, e justamente por isso cada um de nós pode ser os dois. Eu, enquanto mulher cis, vivo em uma sociedade que além de racista, é transfóbica. Que além de racista e transfóbica, é capacitista e classista… Eu enquanto mulher cis branca de classe média convivendo com pessoas com deficiência física, negras, trans* e pobres, em uma sociedade que nega direitos a todos eles, tenho sim privilégios

Tenho visto nos últimos meses uma onda imensa de transfobia dentro do movimento feminista, e embora eu não me sinta apta pra falar sobre o que pessoas trans* sentem em sua totalidade, tenho tentado reconhecer meu privilégio nessa questão.  Não é tão difícil de entender se pensado racionalmente, deixando de lado qualquer emoção romantizada sobre militância e teorias (que não são sagradas e podem ser questionadas por outras mulheres). Se vivo, sendo cis, em um país onde pessoas trans* são mortas simplesmente por serem trans*, o privilégio é nítido. O machismo mata mulheres cis todos os dias (e mulheres trans* também são mortas pelo machismo, já que a transfobia está diretamente ligada ao que a sociedade espera do ”feminino”), sim, já que homens cis detém o privilégio de não serem mortos só por serem homens. Entretanto, mulheres cis são reconhecidas como mulheres pela sociedade, enquanto que mulheres trans* (assim como todas as pessoas trans e não binárias) passam a vida buscando o mínimo reconhecimento social e respeito, e são mortas por isso. Ninguém duvida de nós, cis, quando dizemos que somos mulheres. Ninguém duvida que uma mulher cis seja mulher independente de sua classe social ou qualquer outro aspecto de vivência, sempre somos reconhecidas como mulheres, enquanto as pessoas trans* não conseguem a mesma garantia da sociedade toda. Ou seja, mulheres trans não são reconhecidas, além de serem mortas, espancadas, expulsas de casa, humilhadas, sexualizadas em critérios abusivos e com vários direitos essenciais negados por serem trans*.

Quando nascemos, somos designados, socialmente, a um gênero de acordo com nosso genital. Sim, a sociedade faz isso, mas isso não quer dizer que tenhamos que aceitar. Nós, feministas, não aceitamos que a sociedade nos diga o que devemos vestir, comer, falar, gostar… Então por qual motivo aceitaríamos que outras pessoas fossem designadas com um gênero que não lhes condiz? Se combatemos a imposição social sobre nossos corpos seria então uma hipocrisia nossa NÃO combater a imposição de gênero no nascimento (não só no nosso, como no nascimento dos outros)? Se lutamos todos os dias para que reconheçam os privilégios sobre nós, devemos também reconhecer os nossos sobre outras mulheres.  Temos o que a sociedade espera de nós: somos mulheres com vagina. Esperando isso, a sociedade vai rechaçar qualquer mulher que não tenha uma e aí começa o privilégio cis. Nossas vaginas não são opressoras, a sociedade é, mas por possuirmos uma, nunca duvidam do nosso gênero. Tenho amigas e amigos trans* que lutaram a vida toda para o reconhecimento. Que desde muito cedo sofrem hostlização da família, amigos, de desconhecidos, tudo isso por não se encaixar no que o mundo espera. Assim como nós, pessoas trans* também lutam contra uma sociedade com estruturas excludentes, lutam pela sobrevivência. Ter o mínimo de empatia, respeito, inclusão e colaboração com pessoas trans* não é só uma boa ideia para as pautas feministas, como também é nossa obrigação enquanto seres humanos que lutam por direitos humanos.

 

 

ps.: em muitos textos e relatos pela internet presenciei pessoas dizendo que pessoas trans* são estupradoras em potencial, pedófilas, homens de saia e milhares de outros absurdos. Então gostaria de dizer que ainda que algumas pessoas trans* cometam erros, assim como todos nós, são humanas e merecedoras de reconhecimento de seu gênero. Se reconhecemos o gênero de qualquer pessoa cis, independente de seus atos, também devemos reconhecer o gênero de pessoas trans*. Não vejo ninguém dizendo que TODAS as mulheres cis são assassinas porque uma mulher cis assassinou alguém. Não vejo generalizações criminais quando se fala de mulheres cis, então sejamos coerentes e não misturemos o gênero de alguém com sua conduta de caráter, e nem julguemos toda uma causa social com base em algumas pessoas que possam fazer parte dela.

 

ps2: se informar sobre o que não conhece é importante, então as dicas pra quem quiser se informar mais sobre as questões trans* são:  textos da Daniela Andrade, publicados no facebook dela e o site transfeminismo, que aborda o feminismo interseccional pela visão trans*.

sou feminista: posso emagrecer?

Emagrecer ou não emagrecer? Eis a questão femista. A resposta pode ser um sonoro não para alguns grupos, já outros acreditam sim. Eu pessoalmente acredito que é algo que somente a mulher pode decidir por si mesma. Muitas mulheres escolhem emagrecer por questão estética mas também devemos lembrar que existem outros motivos que levam alguém ao emagrecimento, e que cabe somente à ela decidir.  Sempre que falo isso em algum debate feminista ou em alguma discussão pela internet, recebo algumas respostas, então vou colocar aqui observações sobre elas e sobre o quanto nosso limite não é o mesmo limite do outro:

”tem que ensinar a mulher a se aceitar, não a emagrecer” 

Tem que ensinar a se aceitar, tem que ensinar a se amar, tem que ensinar que a mulher não é um robô e que pode sim tomar a decisão que achar mais adequada pra ela, pra vivência dela. Eu aceito partes do meu corpo e não aceito outras. Já odiei partes que hoje amo e já amei partes que hoje odeio. Não é algo estático então depende exclusivamente do tempo da própria mulher pra se gostar, não dá pra impor amor próprio, e enquanto esse amor não é definitivo, o conforto pessoal deve ser preservado.

”feminista que quer emagrecer se vende pro sistema”

Todos nós estamos inseridos em um sistema que nos oprime em diversos níveis. Mesmo que contra, não estamos totalmente livres de praticar coisas que colaborem com o sistema pois fazemos parte dele. Colaborando com o sistema ou não, não podemos ignorar que pessoas têm sentimentos, sensações… Passamos a maior parte da vida recebendo mensagens de que emagrecer é melhor do que ser gorda e isso não se desconstrói de um dia pro outro, não se  injeta nas pessoas a sensação de que elas já se amam e se aceitam. Isso leva tanto tempo pra algumas mulheres e pouco tempo pra outras, portanto padronizar quem não deve emagrecer é um tipo de opressão, ainda que não estrutural, mas também fere o tempo pessoal de cada mulher pra lidar consigo mesma. Ser xingada, humilhada, ridicularizada são só algumas das coisas pelas quais as mulheres fora do padrão passam, temos que combater o sistema que trata as mulheres assim como se fosse justo, não combater as mulheres que buscam não sofrer mais dessa forma.

”é hipocrisia ser feminista e querer perder peso”

Feministas não são pessoas exclusas do restante da sociedade. Nós também estamos diariamente em contato com os padrões internalizados em nós desde que nascemos. Lutamos pela liberdade e por direitos não nos torna blindadas automaticamente. Feminismo é um movimento social e como todo movimento social, envolve pessoas. Obviamente o ideal é que todas nós tenhamos conforto em ser como somos, longe dos padrões, mas um ideal não é realizado sem respeito ao tempo que isso leva pra acontecer.

”se quer emagrecer e é feminista, então é libfem (feminista liberal)’

Primeiro que feministas liberais também são mulheres e também são feministas, então não usem isso como ”ofensa”. Segundo que não acredito que seja muito inteligente dizer para uma mulher o tipo de feminismo que ela prefere, sem que ela tenha dito expressamente. Terceiro que ninguém está no corpo, lugar e vivência da feminista que quer emagrecer pra saber como ela se sente exatamente. Ninguém pode dizer pra uma mulher se ela pode ou não emagrecer por ser feminista pelo simples fato de que não faz parte do seu direito enquanto ser humano julgar a decisão de alguém.

 

Nós temos uma vida com começo, meio e fim, seria de um egoísmo absurdo exigir que uma feminista que quer emagrecer não o faça, já que o nosso tempo de vida é finito e até o fim chegar, somente ela sentirá o desconforto de passar a vida se sentindo inadequada. Devemos sim incentivar que todas as mulheres percebam o quanto seus corpos não são errados, devemos sim mostrar que tudo o que sabemos sobre beleza foi construído pela opressão, tanto do patriarcado quanto do capitalismo. Devemos sim mostrar que se amar é parte essencial para acabar com o machismo, entretanto estamos lidando com pessoas e certamente respeitar o limite, espaço e conforto delas em suas vivências é o primeiro passo para a sororidade.

 

 

 

 

 

 

romantização pessoal das causas sociais

Aos 15 anos comecei a ter aulas de Sociologia na escola e foi como se eu tivesse entrado em uma porta totalmente diferente da que imaginei. Toda aquela teoria sobre igualdade e justiça, sobre o trabalho e a huminidade: ali eu senti que poderia (e deveria) me mexer pras coisas mudarem. Li tudo que pude na época, conversei com professores e professoras da área, eu me sentia infinita… Ia dormir imaginando que um dia o mundo seria diferente. Eu ouvia Imagine e chorava, sentia aquele calor no peito, o futuro seria de luta e conquistas. Aí eu cresci. Com 18 entrei pra faculdade e ainda sentia boa parte dessa beleza de se lutar pela igualdade social. Euqueria reivindicar a paz mundial e o atraso do professor que demorou 10 minutos pra chegar na sala. Eu queria gritar por justiça e pelo salgado da cantina que veio errado. Eu fazia tudo isso acreditando que estava botando tijolinhos no grande muro que é a luta social. Eu realmente acreditava que estava mudando o mundo aos poucos e que tudo seria lindo. Aí eu fui pra rua. No meu primeiro protesto meu coração acelerava (não lembro sobre o que era. óbvio que nem eu mesma deveria saber o que fazia ali exatamente). Ao mesmo tempo que eu torcia pra tudo correr bem e também torcia pra algo fica emocionante. Eu tinha sede de aventura e claro, não era em vão, eu queria mudar o mundo. Cada grupo que saía correndo me enchia os olhos, as coisas estavam melhorando, as pessoas estão unidas. Aí eu caí do 20º andar desse prédio carcomido que é o mundo: NADA É TÃO LINDO. O mundo não vai mudar em poucos anos porque eu quero. Não basta querer e achar lindo, tem que fazer mais do que sonhar.

Gritar por todas as coisas que de fato são nossos direitos é perfeitamente justo e necessário. Fazer disso um clipe musical, não. Ignorar o realismo das situações (e as formas adaptadas de lidar com elas) nos torna mais fortes ou nos engana? Quando romantizamos uma causa (ou várias) perdemos não só o foco como também o bom senso. A romantização pode interferir até mesmo em como vemos colegas não tão ”empolgados” ou apaixonados pela luta. Vejamos como exemplo a própria estrutura do amor-romântico:

o amor é lindo, tudo crê e tudo suporta. Se deve viver por amor e morrer por amor. O amor é único, se não nem foi amor. O amor é tão lindo que você só vai ter desejos carnais pela pessoa que você ama e só pode ser uma, se não não é amor, é oba-oba. Não se pode desistir do amor pois sua alma gêmea está te esperando em algum lugar. Sim, só existe uma. Quem ama quer gerar filhos com o ser amado. 

Causas sociais romantizadas não são tão diferentes: ”a igualdade merece sangue e suor independente das estratégias, devemos morrer pela causa em que lutamos. todos nós. O ativismo é maravilhoso, você jamais vai se sentir cansado, precisar tirar uns dias pra se reestruturar ou repensar os próprios ideais. Tem que correr da polícia em protesto, tem que ver poesia em tiro de borracha na cara. Dor não, medo não, só beleza. Não pode dar pra trás, não pode ficar em dúvida, tem que seguir a cartilha pois lutar é lindo, é massa, caminhando e cantando e seguindo a canção, mesmo que não tenhamos escrito canção nenhuma. Quem é ativista deve militar incessantemente. Vamos mudar o mundo todos juntos mas se uma causa vira moda ninguém vai mais te achar revolucionário, tem que ser mais rebelde que os outros, tem que impressionar. Tem que chocar e incomodar pra que as pessoas mudem.” Me pergunto se o chocar funciona como arma política ou se separado da conscientização ele se torna uma armadilha. As pessoas não lutarão conosco enquanto priorizarmos o chocar ao invés do reeducar. Os dois funcionam juntos, mas se a reeducação não for despertada durante o choque, ele se vira contra nós.

Ativistas são humanos com milhares de vivências diferentes. Com dezenas de problemas diários que não tornam ninguém mais ou menos ativista que o outro. Não somos robôs, não deveríamos agir como robôs programados para a paixão. A paixão nos empolga, nos tira do conforto mas nos faz agir sem a menor estratégia (ainda que mínima e pessoal) e um ativismo sem estratégia funciona? O choque que devemos causar nas pessoas carrega uma conscientização ou só uma mensagem que não instiga? Nossos cartazes prendem a atenção de quem os lê? Nossas ações despertam curiosidade e pesquisa ou só fazem com que os outros se afastem de nós sem entender nossa luta? Estamos caminhando pra mudanças efetivas enquanto agimos como uma banda de rock em turnê? Nos machucamos em protestos e nos revoltamos com isso ou contamos com orgulho no dia seguinte os cortes? Bradamos nossos cortes com louvor e não nos lembramos de usá-los de exemplo pra quem nos feriu. Nos esquecemos de mostrar cada corte e apontar cada arma, e explicar o motivo. Estamos vivendo um período de festa do ativismo: comemoramos entre nós, debatemos entre nós, convivemos entre nós. O ativismo virou par romântico da nossa vida definitivamente, (nos fazendo agir como adolescentes apaixonados por algo novo) ou ainda podemos trabalhar nele como um objetivo real, considerando as limitações, buscando adaptações e revisões?

mas vocês já podem votar e trabalhar

”MAS VOCÊS JÁ CONQUISTARAM O DIREITO AO VOTO E AO TRABALHO, NÃO PRECISAM MAIS DO FEMINISMO”

 

O machismo tem meios diversos de se manter presente. Um deles é o pensamento geral de que as mulheres já conquistaram a igualdade e de um jeito muito deturpado, passamos a vida repetindo isso como se de fato o feminismo não fosse mais importante. Muitas pessoas não sabem ainda que feminismo não é uma luta estática e que não teve fim. Feminismo existirá enquanto houver resquícios machistas na sociedade. Enquanto mulheres estiverem, de forma discreta, sorrateira ou nítida, sendo oprimidas. E em ”sendo oprimidas” podemos dissecar: a vítima de estupro que é lida como culpada, os salários muitas vezes menores (conquistamos o direito ao trabalho mas não ao salário igualitário), a sexualidade feminina que só é considerada com recortes, o apagamento de direitos pra mulheres trans*, o apagamento de direitos pra mulheres negras, o padrão de beleza que muda a cada nova sacada da publicidade, a garota de 12 anos que não consegue chegar até a escola, uniformizada, sem ser assediada por um desconhecido na rua, a mulher gorda que tem seu prato vigiado por quem está ao redor, as lésbicas que sofrem estupro corretivo, as bissexuais que são consideradas indecisas, imploradoras de atenção… A mulher que é surrada pelo marido mas não pode denunciar porque foi ensinada que a mulher sábia edifica sua casa. A mulher que denuncia mas que morre antes de conseguir qualquer justiça. A mulher que trabalha o dia todo em uma empresa mas chega em casa e ainda precisa fazer todas as tarefas domésticas sozinha porque o marido está cansado do trabalho. A mulher que é considerada burra por decidir se dedicar aos filhos, a mulher que é considerada sem coração por decidir se dedicar à carreira, a mulher que não quer ter filhos e é tida como cruel, a mulher que não quer se casar e é chamada de amarga, a mulher que não gosta de cozinhar e é xingada de relaxada, a mulher que não se depila e sofre chacota, sendo chamada de nojenta, a mulher que gosta de sexo e é lida como vadia, a mulher que não gosta de sexo e é lida como frígida. A mulher. Ser mulher é o suficiente pra experimentar uma ou mais dessas coisas, e até outras não listadas aqui.

O feminismo ainda é importante porque ainda estamos muito longe do que deveríamos. O feminismo ainda existe porque votar e trabalhar nós podemos, mas dentro dessas 2 possibilidades existem outras muitas que nos são negadas. Podemos votar mas a representação feminina pelos direitos das mulheres na política ainda é mínima. Podemos trabalhar mas as oportunidades no mercado de trabalho são determinadas de formas absurdas, como por exemplo a demissão de mulheres grávidas ou a não-contratação de mulheres trans*. O feminismo ainda é importante porque o machismo ainda tem os tais meios diversos de se fazer tão presente e naturalizado.

depoimento não-binário: todos os lados de um ser humano

Graziela Magnani (@aocaleidoscopio no twitter) escreveu esse texto lindo e abri as portas e janelas desse blog para publicá-lo.Cada palavra, cada ponto, cada sentimento desse texto merece toda nossa atenção e empatia:

” Hoje eu me vejo como mulher. Não somente hoje, mas durante os 19 anos que vivi. Desde sempre vi a imagem de ser mulher por uma ótica inconformada. Quando era pequena, usava as roupas do meu irmão e as maquiagens da minha mãe. Brincava e corria, sujava meus vestidinhos e adorava camisetas listradas e largas. Apontavam que eu era bruta, que eu não sabia ser feminina. Não me conformei nunca com isso. Cresci e continuei no mesmo exercício, que com o passar dos anos se desenvolveu a questionar todo tipo de agressão patriarcal. “Não é justo que mulher tenha que fazer certas coisas. Não é justo que mulher tenha seus direitos cerceados. Não faz sentido mulher ser desrespeitada, muito menos ser morta por simplesmente existir.” Mas nos últimos meses provei na carne uma das maiores injustiças: a sociedade ter de dar um selo de aprovação para conceder alguém o “ser mulher”. A mulher não se define pelos genitais. Para ser mulher, não é preciso usar batom, tão menos saia. Não precisa ter buceta, não precisa ter uma voz delicada. Existem mulheres de barba, existem mulheres com pinto, existem mulheres onde nós sequer imaginamos pois vivemos numa sociedade não só patriarcal como cissexista. A maior agressão de todas é definirem nosso gênero antes mesmo de podermos pensar por nós mesmos. A maior agressão de todas é a normatização do termo “sexo biológico”. A partir do momento que você nasce, a sociedade espera que você aja de tal modo. Quem se descobre trans* no meio do processo está fadado. Fadado a sofrer múltiplas e infinitas restrições de direitos básicos, de respeito, de amor, de compreensão. Fadado ao apagamento, esquecimento, marginalização, silenciamento. Somos discriminadas, discriminados, discriminadEs por sermos quem somos. A maior guerreira é a mulher trans*. Sim, trans com asterisco. Pois mesmo dentre as identidades trans* existe um apagamento GIGANTE das identidades que fogem do binarismo de gênero, o “clássico” homem e mulher. Durante toda minha vida sofri um questionamento sobre o que eu era, nunca obtive resposta. Nossas identidades são silenciadas, nossa vivência, horrorizada. Hoje me classifico como gênero fluído, um tipo de identidade não binarista. Isso quer dizer que me vejo hora como homem, hora como mulher. Agora vocês me perguntam: o que a mulher tem a ver com pessoas trans*, inclusive as não binárias? Simples: todes nós temos nossos gêneros marginalizados, de uma forma ou outra. A mulher é marginalizada pois tratam-na como objeto, subjetiva ao homem. As pessoas trans* são marginalizadas, pois aos olhos da sociedade nós não existimos. A mulher cis sofre feminicidio para a manutenção do poder patriarcal. A mulher trans* sofre feminicidio por existir. Por ter sua identidade transformada em abominação. O mesmo com pessoas não binárias. A partir desse pensamento bem resumido, não seria necessária uma UNIDADE para combater o CIStema? Pois o patriarcado se mostra perigoso, mas tão perigoso quanto ele é o cissexismo, é o binarismo. O patriarcado subjulga as mulheres; o cissexismo agride as pessoas trans*; o binarismo é tão posto que é como se simplesmente não existíssemos. É sobre o que menos se fala dentro do movimento feminista como um todo. Fui feminista por 5 anos e só ano passado descobri sobre identidades não binárias. Eu sou homem, eu sou mulher. Eu uso maquiagem, uso roupas “masculinas”, uso vestido quando sou homem, uso bermuda e regata quando sou mulher. Uso o que eu quero quando tenho vontade, e isso não define minha identidade de gênero. O que vestimos, como aparentamos não tem nada a ver com ninguém a não ser nós mesmos. O cissexismo tem que acabar, o binarismo tem que acabar. Pessoas são invisibilizadas por isso. Quantas mulheres trans* existem no mundo, sem saber que são mulheres simplesmente pq gostam da sua barba, do seu pênis, do jeito que veste? Nossas identidades vão além da aparência. Nós somos o que nós falamos que somos, e não o que determinam que somos. E eu determino que mesmo gênero fluido, sou mulher e não saio da luta. Todo o meu amor, todo o meu apoio aos gêneros marginalizados: as mulheres cis, as mulheres trans*, homens trans*, genderqueers e etc. Juntes nós conseguiremos acabar com toda a opressão. A revolução será intersseccional, transfeminista ou não será”

das coisas que o calendário não conta

Durante essa semana eu gravei um vídeo sobre o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Falei ali algumas coisas mas certas pautas devem ser repetidas em todos os espaços possíveis.

Quando eu era criança, voltei muitas vezes da escola com uma flor de papel crepom e um cartão escrito FELIZ DIA DAS MULHERES com lápis cor-de-rosa. Chegava em casa e saía com meu pai pra comprar um sapato ou outra coisa que minha mãe pudesse gostar. Cresci então com a ideia de que era um dia de alegria, um dia pra eu saber como era legal ser mulher e aquelas moças que morreram carbonizadas na fábrica há muitos anos atrás significavam que eu não precisava mais me preocupar por ser menina, elas tinham sofrido pelas que viriam. Aí no início da vida adulta me deparei com o feminismo. Quando a gente tropeça na pedrinha da consciência, cai, rala o joelho e não quer remédio ardente. A gente quer é uma calçada que preste. Percebi que aquelas mulheres tinham sim um peso importante pra todas as outras que viriam: elas morreram lutando por direitos, e quantas de nós ainda morrem hoje pela falta deles? Quantas de nós morrem nas mãos de companheiros violentos, de abusadores impunes? Por vezes morremos nas nossas próprias mãos, pra ter algum alívio. Um dia em um ano. Um dia em que nos dão rosas, chocolates, presentes, elogiam nossa essência em um comercial de perfume, e esperam que nós fiquemos felizes. Um ano inteiro de padrões, cobranças, mortes, surras, racismo, lesbofobia, bifobia, misoginia, transfobia… Vítimas sendo culpadas, muita homofobia motivada pelo machismo… Um dia pra nos dar flores e nos parabenizar por algo que querem que sejamos.

Dia da Mulher não é um dia de festejar, é um dia pra se apontar a dor. Não se pode desejar ”feliz dia da mulher” pra nós se felicidade é um estado no qual raramente estamos inseridas quanto aos direitos. Não estamos felizes quando nos negam direitos reprodutivos. Não estamos felizes quando nos culpam pelos abusos. Não estamos felizes quando nos cobram corpos que mudam de acordo com a necessidade do capitalismo.  Não estamos felizes quando o tamanho da nossa saia decide se um estranho é culpado ou não por ter nos tocado sem a nossa permissão. Não estamos felizes quando mulheres que amamos são demitidas do emprego quando engravidam. Não estamos felizes quando recebemos nosso holerite. Não estamos felizes com rosas sendo compradas e entregues por mãos que nos tocam no trem lotado. Não estamos felizes com a igreja e o governo decidindo se devemos ou não ter filhos. Não estamos felizes e não vamos ficar só por receber uma rosa no dia 8 de março.

Não estamos felizes quando nossas crianças estão aprendendo na escola que dia da mulher é só pra dar parabéns pra mamãe, por lavar a louça e cuidar do papai. Ou pra dar parabéns pra irmã mais velha, por trabalhar o dia todo com saltos imensos nos pés, mesmo que ela chegue todos os dias em casa reclamando da dor, mas a empresa exige ”elegância.” O calendário te mostra o dia da comemoração, mas não te conta a história e não te atualiza do presente.  Eu estava feliz levando aquela rosa de crepom pra minha mãe por achar que ser mulher era maravilhoso. E até é, mas não nesse mundo. Não hoje.